terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Songs of Experience, do U2




Algum tempo depois de ter visto o irretocável show de comemoração dos 30 anos do álbum The Joshua Tree, consegui um espaço nas rotinas para ouvir o bom álbum de 2017, Songs of Experience. Apesar do título, há pouco de climático, experimental, conceitual ou programadamente oscilante no trabalho. O álbum está mais para mais uma reunião de canções do que para um resultado de qualquer princípio de criação costurado por elas. Há boas canções pop, e menos rock. Ou talvez rock mais pop, menos gritado, menos explosivo nos refrões e nas entradas de guitarra. A voz de Bono assume um timbre mais agudo e coloca-se de forma menos rasgada. Os arranjos são bem equilibrados, e as faixas alternam intenções musicais com competência, garantindo o colorido da ordem de audição. Mesmo fazendo um álbum com quase todas as características sonoras que consagraram a banda, o U2 parece ter optado por certa economia nas dinâmicas e nas execuções, o que pode tornar a música mais agradável e propícia para a execução em rádio e TV, mas ao mesmo tempo menos marcante para o fã-clube construído ao longo dos anos.
As três primeiras faixas formam uma excelente comissão de frente, e lembro de ter ouvido a terceira no show, com recepção respeitosa do público. "Lights of Home" teria lugar nos melhores álbuns da banda, em que pese lembrar um pouco o Coldplay. "The Little Things That Give You Away" é muito boa e pode se tornar hit. "Landlady" lembra canções do Unforgettable Fire.  "13 (There is a light)" tem uma beleza doce e triste. "Book of your heart"utiliza o recurso da dobra de voz de Bono em oitava, que considero umas das mais belas marcas da banda.
Não se pode exigir do artista a produção de um clássico por ano. O U2 já fez pelo menos uns cinco álbuns clássicos do rock e do pop. Este Songs of Experience não me parece ocupar esse patamar com eles. Talvez a experiência evocada no título seja justamente a noção de que deve-se fazer o que se pode, da melhor maneira possível, e de que cada momento da vida de uma banda exige uma resposta adequada sonoramente, que nem sempre será a mais estimulante ou a mais intensa. De qualquer forma, acaba sendo injusto comparar o U2 consigo mesmo, dada a estatura que a banda adquiriu; as canções de Songs of Experience podem ser ouvidas, hoje, por qualquer iniciante em U2 como boas canções. Comovem, empolgam e agradam na medida do nível de exigência atual do pop, até um pouco acima.
Gostei bastante.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Sigur Rós, Popload Gig, Espaço das Americas, 29 de novembro de 2017



Poder ver o Sigur Rós ao vivo depois de 20 anos de espera é uma das sensações mais gratificantes para qualquer fã brasileiro. Acessar as músicas da banda via Spotify ou troca de arquivos é fácil, ver os clipes e as produções visuais na internet também. Porém, sempre tive muita dificuldade enquanto colecionador para adquirir os CDs e LPs de carreira da banda, nas versões especiais que circularam na página deles e nas lojas virtuais por aí. Como fã, isso me deixou um pouco frustrado, dado o carinho que tenho por todo o material que produzem. Até hoje aguardo alguma estabilização da moeda que me permita adquirir a música dos islandeses nos suportes devidos, pensados artisticamente como tudo o que fazem.
Feito o desabafo, revelo que, no dia 29 de novembro, após ouvir a quarta canção, eu já estava em prantos. A intensidade do show arrebata qualquer um. Música, luzes e concentração constituem um clima único, que não vi em nenhuma apresentação de banda que prestigiei (nem no U2, nem no Coldplay, nem em mais ninguém. Quem pode acompanhar o show, presenciou um espetáculo único, musicalmente formidável, que não pode ser repetido nem imitado por nenhuma outra banda que conheço simplesmente porque é singular em sua proposta.
A força da música do Sigur Rós está na liberdade com os timbres e as dinâmicas. Sim, quem conhece a banda sabe o quanto são sensíveis os arranjos e os vocais. Mas ao vivo tudo isso fica mais forte, tanto pelas possibilidades de volume, quanto pelas escolhas de foco e dispersão da iluminação sobre o palco.
A versão curta de "Festival" parece-me pensada para ser mais agressiva na parte final. "Saeglóplur" e "Glósóli", por usa vez, soam tão pops quanto nos álbuns. Pessoalmente, considero perfeitamente adequado o encerramento do show com "Poppalagid", que é a minha preferida de todos os trabalhos. Quando eles deixam o palco e o jogo de luzes acompanha a extensão das notas finais da música ainda por alguns minutos, vivenciamos um autêntico final apoteótico. 
Musicalmente, não conheço nada melhor no mundo pop. 
É minha banda preferida, e eu pude vê-la ao vivo. Ponto.

domingo, 19 de novembro de 2017

Picanha de Chernobill, na avenida Paulista, 12 de novembro de 2017

Algumas semanas antes, estava andando pela Paulista e encontrei um amigo, que considero da família, promovendo o show dessa banda. Eles estavam no intervalo, e infelizmente eu não podia ficar. Tinha alguns outros afazeres, mas fiquei curioso de conhecer o som daqueles meninos com cara de roqueiros maus que estavam preparando seus instrumentos.
No domingo, dia 12 de novembro, fui especificamente para vê-los, aproveitando o aviso de meu amigo no Facebook. Cheguei antes de começarem, e já havia público considerável à espera. 
Quando o som começou, identifiquei um proposição autêntica de rock, com algumas pitadas psicodélicas. Lembrei do Violeta de Outono, mas não creio que essa seja exatamente uma referência deles. No decorrer do show, vi rock e blues em diferentes ritmos, mas sempre prestigiando a guitarra e a força da interpretação. Lembrei das melhores coisas do Free, mas tinha bastante de anos 60 também. 
O fato é que o Picanha de Chernobill cativa com sua sonoridade vintage, porque soa atualizado pela excelência dos músicos que o compõem. Rock de verdade, com pegada, e bem tocado. A prova disso é a permanência do público até o fim do show e até depois do fim do show - sim, porque as ruas da Paulista já estavam abertas novamente para circulação de carros e o público ficou pelo menos mais 20 minutos pedindo mais e mais.
Depois da apresentação, os meninos tiveram a delicadeza e boa vontade de autografar os dois CDs que comprei. Isso também conta para eu ter gostado.
Eles vivem desse giro pelas praças e ruas de São Paulo. São muito queridos, pelo que vi. Passam o chapéu pedindo contribuições, e vendem seus CDs nas banquinhas ao lado do espaço de apresentação, ajudados por amigos e colaboradores.
Parece que eles estão agora na Europa. Merecem sucesso por lá também. Boa sorte!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

The Joshua Tree Tour, estádio do Morumbi, 22 de outubro de 2017 - U2



Coroando os 30 anos do álbum, o U2 apresentou nesse fantástico show todas as músicas do "Joshua Tree" e mais alguns outros clássicos da banda. Fiquei na pista, mais ou menos no meio, longe do palco. O que mais gostei no show:
1) Abertura de Noel Gallagher, mostrando a energia, qualidade e vitalidade de suas gemas. Definitivamente, um grande compositor de rock. Boa banda, pegada de espetáculo, menos solos e mais pulsação, e espaço para que as canções brilhassem por si. Mais que um simples aperitivo.
2) O set do show colocou quatro clássicos na entrada antes do "Joshua Tree", e uma coleção de hits pós-Acthung Baby depois do "Joshua Tree". De certa forma, essa escolha valorizou as fases da banda, com um primeiro momento mais "rock" e um segundo momento mais "pop de rádio". O "Joshua Tree", com certeza, está mais próximo do primeiro momento.
3) O projeto gráfico do show valorizou sobremaneira a beleza das canções do álbum homenageado. O uso da projeção funcionou como narrativa paralela ao discurso musical. Foram selecionadas imagens belíssimas e de muito impacto. Poucas vezes vi uma estrutura de show tão bem pensada.
4) Embora meu inglês e meu espanhol sejam fraquíssimos, foi possível me divertir com os trechos literários e poéticos que rodavam no telão antes dos shows do Noel e do U2. Se eu tivesse mais condição de leitura nessas línguas, por certo teria aproveitado mais.
5) O U2 sempre foi bom de palco, e vê-los em ação só poderia ser gratificante mesmo. Quando estão lá em cima, os caras têm personalidade, sabem o que querem entregar e conseguem ótima interação com a plateia. 
Um dos melhores shows que já vi. Veria novamente, sem dó.

sábado, 21 de outubro de 2017

The Joshua Tree, do U2




Você pode não considerar U2 uma de suas bandas preferidas, ou mesmo não considerar The Joshua Tree como um dos melhores álbuns do U2. É perfeitamente compreensível, pois há gostos distintos entre os apreciadores de rock, e fases distintas em que o U2 apresentou trabalhos com consistência musical. Mas creio que The Joshua Tree é aquele disco que faz com que, hoje, mesmo aqueles fãs menos fervorosos, ou até os roqueiros que torcem o nariz, coloquem sem muita discussão o U2 como uma das 10 bandas de quarenta anos para cá, e uma das 20 de toda a história do rock. Mais que uma coleção de hits irresistíveis ("With or without", "I still haven't found what I'm looking for") ou uma seleção consistente de clássicos para os fãs mais exigentes ("Running to stand still", "One three hill", "Red hill mining town"), The Joshua Tree é uma estrutura bem concatenada, bem construída como narrativa na ordem de audição, e, sobretudo, muito uniforme na sonoridade e na intenção.
Eu tinha 14 anos quando conheci o U2, por meio da cerimônia do Grammy. Como adolescente preguiçoso, guardei os hits no coração e só fui ouvir o álbum completo muito tempo mais tarde, já aos 19, mesmo com insistência de sugestão de meus colegas do ensino médio e mesmo já tendo informação da unanimidade crítica conquistada por Bono e cia. com esse trabalho. Quando ouvi, foi interessante sentir uma expectativa altíssima ser correspondida.
The Joshua Tree nasceu clássico. Quem o ouviu no lançamento, cinco anos depois, dez anos depois, teve a mesma impressão. Para mim, é uma lição de pop rock. Beleza, poesia, intensidade e entrega estão espalhadas nas faixas, mas isso não se consegue por acaso. A inteligência e a sensibilidade dos arranjos são impressionantes. As canções são musicalmente simples, poucos acordes, nada de virtuosismo, mas Bono e The Edge conhecem a fórmula da expressividade. Cada faixa pulsa, agride, sugere, toca, expõe. Os arranjos são estupendos. "With or without you", por exemplo, evolui numa mesma sequência de quatro acordes quase a música inteira, mas praticamente nenhuma ocorrência é igual, pois cada uma delas recebe uma densidade, um enriquecimento de detalhes e um tratamento harmônico diferentes. O resultado é que o ouvinte sente a canção crescer e recuar com a voz de Bono, na medida daquilo que precisa ser dito. Não é diferente com as outras dez músicas. Ao fim, nos deparamos com uma sucessão de acertos tão impressionante que não conseguimos passar impunes por ela. Sustentadas por essa uniformidade musical que sugere melancolia e dor, as ideias de deslocamento, busca e superação das dificuldades da vida dialogam com belíssimas imagens de esperança e fusão com a natureza, sempre tendo a paisagem do deserto, com seus ventos, montes e estrelas, como elemento de costura.
Gosto de Unforgettable Fire, acho Achtung Baby sensacional, mas reconheço U2 como U2, no que tem de melhor, em The Joshua Tree
Parabéns pelos 30 anos. Viverá muito mais que isso.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cinema transcendental, de Caetano Veloso




Trabalho magnífico de Caetano, este álbum de 1979 traz algumas das canções mais simpáticas que ele compôs. Como um todo, impressiona pela coesão. A maioria das canções é de celebração, mas a celebração de Caetano não é mera alusão às qualidades do que é celebrado; pelo contrário, ele aposta sempre em fazer jus a essas qualidades com uma poesia refinada e um senso de observação que extrapola o imediato e o óbvio. Assim, o "Menino do rio" é mais que alguém interessante: torna-se uma doce e terna homenagem à beleza dos moços das praias sintetizada em uma figura facilmente reconstruída na imaginação, mas dificilmente referida com a maestria do compositor. "Trilhos Urbanos" é a que mais está adequada ao título do álbum, porque lembra de fato o cinema, como se aludisse a cenas de um filme passando na memória. A melodia é tão linda e a letra casa tão bem com o arranjo que a considero umas das melhores de toda a obra de Caetano (e isso é uma valoração e tanto!). "Oração ao tempo", sacada sensacional, personifica o Tempo num diálogo que mistura pedidos e confirmações. "Lua de São Jorge" tem aquela pulsação dançante, comum ao conjunto das músicas do disco, mas nasceu clássica para carnavais e rádios, por sua beleza rítmica e por sua letra cativante. Das menos conhecidas, "Badauê" funciona como uma vinheta experimental, "Os meninos dançam" lembra um pouco Jorge Benjor, pela base harmônica simples com levada pulsante conduzindo uma letra longa e de encaixe complicado na melodia, "Aracaju" tem arranjo de sopros instigante. "Vampiro", a princípio, soaria como a mais deslocada entre as canções do álbum, por ser a menos pulsante, mas é sucedida por "Elegia" e, no fundo, ambas são experiências poético-musicais complementares. "Beleza pura" é autêntica música de rádio, mas melhor que a imensa maioria das músicas de rádio. "Cajuína" consagrou-se em outras versões, mas seu brilho verbal já é nítido nesta gravação do autor. E quanto a "Louco por você", parece romântica, jazzística e poética demais para uma primeira fruição. É a menos imediatamente simpática, mas todo grande trabalho musical tem de deixar uma pergunta no ar, uma razão para retornarmos a ele e não apenas gravarmos as faixas mais conhecidas em coletâneas, esquecendo da proposta conceitual em que foram geradas. "Louco por você" deixa essa abertura, com uma letra não convencional sobre o convencionalíssimo tema do amor não correspondido, amparada por um arranjo primoroso, piano, guitarra na medida, solos, variações na densidade etc.
"Cinema transcendental" tende agradar até aqueles que não curtem muito Caetano. É feito sob medida para deixar tocando várias vezes, até que se perceba que as simpáticas canções são mais profundas do que nos pareceram na primeira audição.

domingo, 8 de outubro de 2017

MCMDC, de Enigma




O fato de começar uma audição de CD com trechos em latim, francês e inglês já é significativo para mim, pois essas são as três línguas que eu deveria conhecer com real profundidade. Essa mistura de línguas é um dos detalhes interessantes de um projeto de misturas muito maior, envolvendo canto, fala, sussurro, canto gregoriano, teclados, guitarras, solos e efeitos. Com esse aparato à disposição, somado à concepção correta e coesa das intenções musicais, Enigma constrói em MCMDC (1990 em romanos) uma sucessão de climas sugestivos, por vezes tensos e eróticos, por vezes sombrios e melancólicos. 
Das pistas de dança ficaram as memórias de “Sadeness”, uma das partes da faixa “Principles of Lust”, inteiramente agradável e forte. Mas mesmo quando abstraímos a simpatia gerada pela memória afetiva, a música do álbum permanece com seu efeito sedutor e provocante. “The Voice and The shake” e “Knocking no forbidden doors” chacoalham o corpo e os sentimentos do ouvinte ao mesmo tempo, e são as melhores faixas do trabalho.
Enigma conseguiu a proeza de construir música ambiente com a pitada de provocação necessária para não passar despercebida. O interesse das inusitadas sobreposições de elementos sonoros e a sugestão de sexo, culpa e cumplicidade fazem com que o ouvinte desatento e ocasional fique com a pulga atrás da orelha, e procure decifrar a narrativa de recados sonoros oferecidas pelas músicas. 
Decifrar não é tão difícil. Difícil é entender a química dos sons que possibilitaram materializar essas sugestões, esse estilo singular e cativante que se mantém interessante 27 anos depois.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Convoque seu Buda, de Criolo




Eis um trabalho verdadeiramente rico.
Passei por ele várias vezes, mas sempre parava nas quatro primeiras faixas. O impacto delas fazia com que eu me retraísse em relação ao resto. Depois que me habituei à força dos versos e dos arranjos, consegui avançar até o final do álbum. Conhecendo a necessidade de equilibrar a verve crítica com a abertura poética e de deixar o ouvinte respirar entre as sacadas, Criolo proporcionou faixas menos pesadas no decorrer de seu trabalho, que não me parecem as principais, e temperam a expectativa para verdadeiras porradas líricas, como "Casa de papelão", "Esquiva da esgrima" e "Plano de voo", a primeira sendo uma daquelas pérolas da canção que o tempo há de tornar ainda mais belas. 
Tem de tudo no álbum, em dose sábia e bem realizado. Reggae, hip-hop, samba, pegada rock, pegada funk: o trabalho de arranjo sobre as composições mostra que a mistura de referências do poeta Criolo tem correspondência na mistura de fontes sonoras e musicais que sustentam suas batidas. Não se trata apenas de ter uma canção para cada, digamos, estilo. Trata-se de fazer com que as canções flutuem em partes distintas, com ambiências variadas, timbres inusitados e densidades instigantes. Musicalmente, o espectro criativo parece ilimitado, a música não se repete em momento algum e o todo da obra remete aos melhores tempos da MPB experimental pós-tropicalista. 
A costura de toda essa variedade é o ethos rapper/descolado/cronista de Criolo, com sua voz marcante, sempre séria e afirmativa. A postura do intérprete é a de quem diz e valoriza o conteúdo do que diz, e por isso há forte investimento de fala poética, e menor investimento no brilho vocal e nas curvaturas melódicas, o que é compensado pela participação de algumas boas cantoras em faixas específicas. No geral, o conjunto das canções soa duro e sisudo, mas fiel à intensidade artística almejada e justo com a amplitude dos referenciais emprestados. Dá para ouvir e dançar, curtir, assoviar, acompanhar, mas no fundo é música para incomodar, e faz isso muito bem.
Tanto que eu não conseguia ouvir inteiro. E, quando consegui, continuei com a mesma sensação de impacto inicial.
Um dos grandes trabalhos recentes produzidos por aqui. Necessário.

quarta-feira, 1 de março de 2017

The wave, de Tom Chaplin




Eis que um dos cantores que mais admiro e gosto de ouvir decide lançar um disco solo, sem a participação de seus antigos companheiros de banda. Isso talvez não tivesse maior importância se não fosse o fato de que seu tecladista era o compositor por excelência (e põe excelência nisso) da quase totalidade das canções que ele cantava até então. O lançamento, assim, ganha a aura de curiosidade natural de se saber como o espetacular intérprete Tom Chaplin se sai sem o não menos espetacular compositor Tim Rice-Oxley, ambos peças-chave da banda pop Keane.
Para matar essa curiosidade e descobrir a verdade artística inerente a esse trabalho, tive de ouvir "The Wave" algumas vezes, com algumas constatações imediatas, e outras mais lentas. Fica claro, de primeira, que Tom Chaplin torna lindo tudo o que canta. Tem uma voz excepcional e um poder de interpretação de canções pop emotivas raro de se encontrar. Mas também parece que seu estilo de compor é diferente do de Tim e do Keane. Tim parece conseguir frases melódicas mais impactantes e pensar arranjos que preenchem melhor o desenrolar do canto. Ele tem aquela sabedoria pop de achar boas unidades entoativas, tornando a canção fácil de cara, e ao mesmo tempo cheia de encantos a longo prazo. 
Com mais algumas audições, percebe-se que Tom é, também, um excelente compositor, com excelentes canções. O álbum é muito equilibrado, e não se consegue apontar uma faixa ruim. Mas parece que Chaplin tem menos preocupação com as boas sacadas melódicas, e mais com a narrativa da canção como um todo. Tanto é que, à exceção de "Quicksand", não há em "The wave" nenhuma linha de voz que se fixe na mente nas primeiras audições. Há, sim, linhas melódicas muito bonitas, canções muito bem feitas, mas com menor apelo pop. Parece que as frases recortadas por Tom são mais longas e sinuosas, com menor clareza dos pontos de chegada e maior número de sílabas poéticas, o que atenua um pouco uma das grandezas de seu canto, que é a potência (aliada à clareza de intenção e pronúncia) na emissão de notas-chave. 
Ouvindo um pouco mais, refletimos que essas diferenças talvez não sejam de estilos, mas de contextos. "The wave" é, claramente, um álbum confessional, em que todas as letras tratam do tema da recuperação emocional, passagem de um estado de quase destruição para outro de restabelecimento paulatino. Com isso, é importante o "dizer": as letras são mais longas e mais sofridas, quase como conselhos de si para si. Há uma tendência de se favorecer, nas composições e arranjos, o conteúdo do que é dito, o encadeamento das palavras para o que se quer expressar, e deixar em segundo plano a expansão da narrativa melódica, em suas direções claras de efusão, explosão ou extravasão emocional, características das composições de Tim no Keane. Mas só conseguiremos confirmar essa hipótese num eventual segundo disco solo de Chaplin, que torço para que só aconteça se acompanhado de um novo trabalho do Keane.
Vale a audição atenta; mais de uma, se possível.
Destaco "Quicksand", "The wave" e "Hold on to your love".

domingo, 26 de fevereiro de 2017

The invisible band, de Travis





Gosto de rock melancólico, mais balada, mais delicadeza, mais emoção na voz. Por essa razão, gosto de muita coisa de Radiohead, Snow Patrol, Coldplay, Keane, Sigur Rós. Com a audição de "The invisible band", do Travis, chego não só à conclusão de que posso incluí-los nesse rol, como também à de que são eles que condensam de forma mais competente as características que citei acima. Diria até que o que mais gosto no Coldplay e no Keane, que são as baladas mais melódicas com vocal mais sentido, é tudo aquilo que me lembra Travis. E arrisco dizer que a grande influência desses dois é o Travis mesmo, o que dá para perceber até mesmo pelos títulos das canções e pelas expressões utilizadas nas letras.
O álbum em questão, excelente coleção de canções, não tem ressalvas. Ele cativa, flui deliciosamente pelo ouvido. O espírito da obra, creio, poderia ser resumido em duas chaves: "menos é mais" e "o que está dentro de mim merece ser oferecido". Em relação ao "menos é mais", a vivência interior trazida pelas letras corresponde a um cerceamento de expansões melódicas. São poucas as guitarras pesadas, os detalhes dos arranjos podem ser ouvidos com nitidez, e nada aparece mais que a voz de Fran Healy, que, por sua vez, não faz questão de aparecer, dando maior espaço à mensagem da qual é cúmplice. Sobre "o que está dentro de mim merece ser oferecido", essa é a lógica que sustenta a unidade do trabalho, sempre falando de estados emocionais, amor, reflexões sobre a vida, pessoas queridas, momentos únicos e a urgência de aproveitar o tempo (esta última, para mim, mensagem comum à maior parte das faixas).
Três canções desse álbum estão entre minhas favoritas de sempre, todas iniciadas com a letra "S": "Sing", "Safe" e "Side". Esta última tem uma letra muito bacana, que eu não tinha sacado até ler a tradução, por ocasião desta resenha. Além dessas, destaco as quatro últimas da ordem de audição original, que se desprendem um pouco mais da proposta mais pop e convencional (e nem por isso banal ou pouco inspirada) das anteriores. Também destaco "Dear Diary", que tem algo de sombrio e delicado ao mesmo tempo.
Grande banda, grande trabalho, fonte (às vezes ironicamente invisível mesmo, para a maioria) de muito do que se faz hoje em dia no britpop.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Infinito particular, de Marisa Monte




Quando Marisa Monte lançou seus primeiros discos, lembro que se tornou uma febre entre os que gostavam de MPB. A excelência de sua voz, de suas escolhas musicais e de seu repertório eram impressionantes. Por essa época, lembro-me de um crítico de uma revista de grande circulação dizer que a diferença entre ela e as outras divas da MPB (Gal, Simone, Bethânia) é que ela não se escondia atrás do que chamávamos de estilo, sendo capaz de interpretar muitas canções de gêneros diferentes sem "distorcê-las" para se parecerem com as canções de seu repertório. Considerei esse comentário, na época, uma grossura e um exagero pueril, mas por trás do histrionismo do crítico havia uma percepção correta de que Marisa transitava entre diversos gêneros com muita facilidade.
Essa é, obviamente, uma grande virtude da cantora, mas há um preço nesse trânsito, que é transformar os álbuns em excelentes coleções de canções que brilham individualmente, mas que não necessariamente formam um conceito sonoro integrado. Evidentemente, não se trata de criticar quaisquer dos trabalhos de Marisa até então, irretocáveis em tudo, inclusive na seleção do repertório. Trata-se de pensar que, notadamente nos três primeiros discos, há muitas canções muito boas e de rápida "absorção", colocadas uma em seguida da outra, o que nos faz ter a impressão de ouvirmos uma coletânea. Às vezes, o artista não quer fazer uma coletânea, não quer colocar dez ou quinze canções de rádio ou de impacto em um disco. Às vezes o artista quer usar canções que não têm tanto apelo comercial, que deixam uma dúvida no ouvinte ou que simplesmente expressam uma faceta até então inexplorada e deixada em segundo plano porque tudo o que foi feito até aquele momento vinha dando muito certo.
Em 2006, Marisa Monte arriscou, saiu do estilo-acima-dos-estilos que construíra para expectativa de seus fãs e lançou dois trabalhos, um disco de samba chamado "Universo ao meu redor" e um disco de composições próprias, "Infinito particular". São trabalhos que se complementam. Se o ouvinte tiver tempo para ouvir os dois discos em sequência, coisa rara nesse mundo em que ninguém para por causa de uma única canção sequer, não se arrependerá. Percebe-se que a pulsação do samba de um é compensada pelas escolhas etéreas e orientalizantes do outro. É uma experiência que vale a pena.
Sobre esses trabalhos, contra todas as opiniões dos críticos e do público, digo que são o melhor de Marisa Monte. Em especial, considero seu álbum de canções autorais primoroso. "Infinito particular" é altamente passional, com letras sensíveis, às vezes abstrativas, às vezes lúdicas, e com uma direção clara do começo ao fim, que é a exploração das vivências interiores. Dentro dessa linha definida, há canções melhores e piores, há canções mais ou menos radiofônicas ("Vilarejo" e "Pelo tempo que durar" são as mais redondinhas para a rádio), mas há também mais riqueza de arranjo, mais abertura para o diferente, mais experiência com as melodias. A voz de Marisa encontra a melodia de Marisa, com linhas que valorizam a precisão, a técnica e a singeleza da cantora. O ouvinte percebe que houve um investimento em uma ideia, que essa ideia rendeu e que o artista assumiu os riscos de sair da zona de conforto e oferecer algo que exige uma audição menos imediatamente "padrão pop". Parece-me que Marisa diz, com essas canções, muito do que quer dizer enquanto artista, considerando que sua condição de intérprete é apenas uma parte de sua condição maior de artista. As razões de esse álbum ter feito menos sucesso que os outros não são muito claras para mim, mas acredito que seja o primeiro trabalho de Marisa que não tem cara de coletânea, ou seja, as canções não se ofuscam mutuamente, têm peso e forças diversas e parecem encontrar um lugar balanceado na ordem de audição proposta. Eu diria que a chave é a manutenção do clima de enlevo, da primeira à última faixa. Além das que já citei, destaco "Pernambucobucolismo", exemplo de canção brilhante e não radiofônica, a faixa-título e a instigante "Aquela". "Pelo tempo que durar" é uma pequena obra-prima sobre permanência e transitoriedade, sabiamente colocada como última faixa, e mais sabiamente ainda utilizada na cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio.
O universo musical de Marisa revela-se com poesia e gigantesca dose de musicalidade como sendo esse "Infinito particular", com mais cara de cosmos que de constelação.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Secos & Molhados (I), de Secos & Molhados




Seriíssimo candidato a melhor disco de música brasileira que já ouvi, este primor de trabalho só não recebe o carimbo definitivo neste momento por três razões. 
Primeiro, porque durante minha permanente tentativa de produzir música de qualidade, mesmo tendo esse disco como referência absoluta, jamais me passou pela cabeça fazer nada sequer parecido; com isso, creio ter sido menos influenciado por ele. Considero o clima, a coesão, os vocais e o Ney ímpares e inimitáveis, o que me fez nunca nem pensar em copiá-los. 
Segundo, porque trabalho com literatura, de forma que meu julgamento de um álbum que traz excelentes musicalizações de poemas (o que é muito difícil de se fazer) tem quase que obrigatoriamente pontos a mais em relação a outras realizações artísticas. É um grande desafio bem cumprido.
Por fim, porque gosto dos acordes simples e de canções mais pop, o que faz com que eu tenda a aderir mais rapidamente ao som dos Secos & Molhados que, por exemplo, ao de gênios experimentais como Arrigo ou compositores complexos como Gil. Estes devem ter até melhores ideias musicais em seus trabalhos, como outros também, mas os Secos & Molhados me "pegam" de forma mais definitiva.
Em função dessas ponderações, ainda deixo espaço para me perguntar se esse álbum é de fato o meu top da MPB, ou se "Clube da Esquina" e "O grande circo místico" não estariam no mesmo patamar, ou superior. Por enquanto, este ainda me vem como o número um.
O que destaco em cada faixa (ordem do CD, que é diferente da do vinil de 73):
1 - Sangue latino: a entrada do baixo marcando a pulsação, seguida do violão cheio e da voz do Ney são muito impactantes. E aí você ouve a letra, sensacional, desafiadora, representativa. Simples e poética, conquista seu corpo e sua atenção rápido.
2 - O vira: a lusitanidade e a brasilidade, complementando a latinidade explosiva da canção anterior. Festa com as criaturas da noite, com os mitos populares. Canção emblemática.
3 - O patrão nosso de cada dia: a pulsação fica menor, o acompanhamento de violão e a flauta trazem singeleza, e eis que ganha todo o destaque a voz do Ney, numa interpretação arrepiante, tanto nas partes mais intensas quanto naquelas mais contidas.
4 - Amor: poema musicado com competência, se transforma em canção empolgante, em grande parte pela linha de baixo. Jogo de vozes faz crescer a força da palavra de João Apolinário.
5 - Primavera nos dentes: sempre considerei essa canção próxima do rock progressivo, não apenas pela extensão da introdução, mas pela centralidade dos solos e das frases musicais e pela progressão do clima antes, durante e depois do canto. Letra (poema de João Apolinário) descomunal.
6 - Assim assado: tratar de racismo com tanta poesia e sutileza não é para qualquer um, ainda mais numa canção alegre e saltitante. Sabedoria na provocação.
7 - Mulher barriguda: autêntico rock'n'roll, deixando um ponto de interrogação no ouvinte em relação ao foco de observação da poesia de Solano Trindade. Falamos do futuro ou da mulher barriguda? Excelente arranjo.
8 - El Rey: canção pílula sobre poema pílula. Provocação breve, direta e incisiva, tanto mais pungente quanto mais certeira.
9 - Rosa de Hiroshima: ponto alto da interpretação de Ney Matogrosso no disco, melodia absurdamente linda sobre poema pesado de Vinicius de Moraes. O arranjo deixa a poesia fluir e brilhar.
10 - Prece cósmica: balada gostosa, com fantástico arranjo vocal e jogo esperto com as pausas e continuações. Bom recorte entoativo sobre o poema de Cassiano Ricardo.
11 - Rondó do Capitão: melodia infantil para poema-parlenda de Manuel Bandeira. Nesse sentido, adequação no ponto máximo. Ney canta num registro mais grave, e continua espetacular.
12 - As andorinhas: outra canção-poema-pílula, corte sensível e preciso que coloca a metáfora na mesa e sai de cena deixando a provocação no ar. Soa como uma afirmação pesada, e respeita a intensidade dos versos de Cassiano Ricardo.
13 - Fala: delicadíssima interpretação de Ney, com uma letra de doçura deliciosa, e um embalo que remete a um clima de afeto, conversa ao pé do ouvido, diálogo de pessoas queridas. O interessante é o conceito da letra estar associado à linguagem fática: muito sobre os interlocutores é dito na interpretação vocal e no arranjo, mas na verdade o conteúdo da letra é a própria preparação do ato de dizer. Lindo.

Muito à frente de seu tempo. Sempre.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Estado de Poesia, de Chico César




Ouvindo esse álbum, fiquei com a impressão de que sou desatualizado. Por duas razões. Primeiro pela sensação de que eu já deveria ter ouvido esse trabalho do Chico César há muito tempo. Segundo, pelas características do próprio trabalho: ele é atualíssimo na temática. Sem forçar a mão. Posso exemplificar fácil com duas canções que, sem problema algum, poderiam ser utilizadas para discutir questões do aqui e agora (janeiro de 2017): "No Sumaré", por exemplo, dialogaria com as transformações de paisagem propostas pela nova gestão da Prefeitura de São Paulo; "Reis do agronegócio" tem muito mais contundência em sua crítica que o samba-enredo carioca que gerou polêmica por apontar as ações abusivas de mega-agricultores. 
Mas tem muito mais que isso.
Tem samba, forró, canção, xote, frevo, uma variedade enorme de ritmos e melodias muito bem compostos, elaborados, arranjados e executados. A sequência de faixas não cansa o ouvinte, uma é completamente diferente da outra. 
Entre as faixas, o grande ponto em comum é a poesia de Chico César, suas sacadas, seus achados, suas brincadeiras, suas experimentações. Você não sai da audição de cada faixa sem uma novidade, uma provocação, uma ideia diferente, uma percepção original. 
Ótimo perceber que o cantor/compositor tem essa inquietude artística que lhe permite desafiar chavões e soluções fáceis. Há canções mais experimentais como um todo, outras menos. Entre as mais inovadoras, destaco "Caracajus".
Mas isso se equilibra com a sensibilidade profunda do poeta, que não está apenas experimentando sons e palavras, o que já seria uma virtude, mas também compondo percepções de mundo originais, inusitadas. Melhor exemplar nesse sentido é "A taça". Letra invejável para qualquer compositor.
"Estado de poesia" não é um título pretensioso para o álbum. Está na medida. Há muita poesia e muita qualidade. Nos últimos anos, vi pouquíssima coleção tão boa de canções. Tanto que estou terminando este texto com a impressão de que não fiz jus às belezas de cada canção que ouvi. Mas estou com pressa de compartilhar.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Acabou chorare, dos Novos Baianos




Musicalmente impecável, o disco é uma explosão de alegria, sentimento e, principalmente, liberdade. Parece de fato a expressão de uma comunidade de gente livre de espírito, convicta dos mesmos valores e mergulhada numa mesma ousadia de ser como é. 
A canção que sintetiza tudo isso, para mim: "Besta é tu".
Mas ninguém ali está alheio aos problemas sociais e aos perigos de uma ditadura assassina. Há várias alusões a isso nas letras, de forma muito sutil. 
Acontece que o grito de liberdade dos Novos Baianos é, por si só, um desafio ao seu tempo, porque desaprisiona pela alegria, sem ser alienado. Há muita vida e celebração da vida nas canções. Mas também há muito conhecimento e informação musical. Nas canções, há empolgação e energia tamanhas que as letras muitas vezes abrem caminho aos scats, para que o ritmo contagiante não dependa da extensão dos versos; há também elementos de bossa nova, tropicalismo e da MPB tradicional, recuperados num carnaval sonoro; há uma pulsação positiva e eufórica que dá unidade ao disco; e há o fator imponderável que é a química da mistura de todos esses quesitos num conjunto de canções que se complementam de forma coesa. O violão revolucionário e inovador de Moraes Moreira, a inteligência e o talento de Pepeu, o canto dengoso de Baby, as letras tremendamente sacadas de Luiz Galvão são alguns dos detalhes individuais que reforçam o conjunto e realizam os potenciais estéticos da proposta.
Vi, num programa da série "Por trás da canção", como foi feita "Acabou chorare", a menos saltitante das faixas. Pareceu-me uma colagem bem concatenada de ideias e brincadeiras, no espírito cinematográfico da tropicália ("Alegria, alegria") mas com menores pretensões de profundidade e mais sensação de delicadeza, trunfo difícil de conseguir quando se quer também alguma crítica política na letra. Luiz Galvão e Moraes foram engenhosos, e esse engenho revela muito do espírito de liberdade criativa que rodeia todo o trabalho do conjunto e que permite as quebras de palavras, repetições de sílabas, alternância de imagens, construção de sintagmas isolados.
A regravação de "Brasil Pandeiro" soa menos épica que a dos Anjos do Inferno. Li no fascículo da coleção "História da Música Popular Brasileira" dedicado a Assis Valente que essa canção seria uma espécie de "Lusíadas" da MPB, celebrando o samba e a brasilidade. De fato, a versão dos Novos Baianos respeita essa força da canção, mas isso aparece mais na pulsação do refrão. Nas estrofes, a linha de violão de Moraes Moreira parece levar o arranjo para uma perspectiva maior de elaboração, mais bossa nova ou jazz.
Há mais a dizer sobre as outras faixas, mas para destacar o que eu queria, creio que é suficiente.
Este é considerado em algumas listas como o melhor álbum da música pop brasileira. Tem méritos para isso, embora eu discorde, pensando no primeiro dos Secos & Molhados, no "Grande Circo Místico" e em alguns do Milton da década de 1970.
De resto, é ouvir. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Delírio, de Roberta Sá




A gravação é de 2015, bem recente, fato que me surpreendeu, por causa do estilo mais passadista (no melhor dos sentidos) dos arranjos.
Álbum excelente, de muito gosto. Presta tributo à história do samba, recuperando o espírito do samba romântico pré-pagode. Nesse sentido, acredito que preenche uma lacuna de refinamento no quadro geral do gênero, conseguindo ser romântico sem ser piegas e mantendo uma condução contida da linha de voz mesmo nas canções mais propensas a crescer nos refrãos e em partes mais agudas.
Muito esperta a escolha de compositores, bastante variada e representativa de várias épocas e possibilidades. Ali estão Arnaldo Antunes, dentre os bam-bam-bans atuais, Martinho da Vila, Capinam, Baden Powell, Paulo César Pinheiro e mestre Ataulfo, do samba toada. Os arranjos para as composições, dentro da linha do samba bem tocado e sem tanto peso na percussão, faz com que elas soem, às vezes, quase como chorinhos ("Um só lugar" é um chorinho mesmo, então não vale).
Roberta tem um timbre leve, bonito e único. Em canções mais temáticas e alegres, sua voz soa como a de Marisa Monte. Em canções mais sentidas e passionais, remete às melhores cantoras de fado.
Canta samba a seu modo, sem o vozeirão da Alcione, mas com muito sentimento. Com um repertório mais delicado e intimista, ela valoriza seu potencial de interpretação. Gosto mais das canções melancólicas que de faixas como "Boca em boca".
Destaco as seguintes faixas: "Não posso esconder o que o amor me faz", letra fantástica; "Amanhã é sábado", com percepção brilhante do cotidiano e todo o jeito Martinho de ser; "Feito Carnaval", com poesia de grande sensibilidade; e "Covardia", pequena obra-prima do mestre Ataulfo.
Me ganhou fácil.