Musicalmente impecável, o disco é uma explosão de alegria, sentimento e, principalmente, liberdade. Parece de fato a expressão de uma comunidade de gente livre de espírito, convicta dos mesmos valores e mergulhada numa mesma ousadia de ser como é.
A canção que sintetiza tudo isso, para mim: "Besta é tu".
Mas ninguém ali está alheio aos problemas sociais e aos perigos de uma ditadura assassina. Há várias alusões a isso nas letras, de forma muito sutil.
Acontece que o grito de liberdade dos Novos Baianos é, por si só, um desafio ao seu tempo, porque desaprisiona pela alegria, sem ser alienado. Há muita vida e celebração da vida nas canções. Mas também há muito conhecimento e informação musical. Nas canções, há empolgação e energia tamanhas que as letras muitas vezes abrem caminho aos scats, para que o ritmo contagiante não dependa da extensão dos versos; há também elementos de bossa nova, tropicalismo e da MPB tradicional, recuperados num carnaval sonoro; há uma pulsação positiva e eufórica que dá unidade ao disco; e há o fator imponderável que é a química da mistura de todos esses quesitos num conjunto de canções que se complementam de forma coesa. O violão revolucionário e inovador de Moraes Moreira, a inteligência e o talento de Pepeu, o canto dengoso de Baby, as letras tremendamente sacadas de Luiz Galvão são alguns dos detalhes individuais que reforçam o conjunto e realizam os potenciais estéticos da proposta.
Vi, num programa da série "Por trás da canção", como foi feita "Acabou chorare", a menos saltitante das faixas. Pareceu-me uma colagem bem concatenada de ideias e brincadeiras, no espírito cinematográfico da tropicália ("Alegria, alegria") mas com menores pretensões de profundidade e mais sensação de delicadeza, trunfo difícil de conseguir quando se quer também alguma crítica política na letra. Luiz Galvão e Moraes foram engenhosos, e esse engenho revela muito do espírito de liberdade criativa que rodeia todo o trabalho do conjunto e que permite as quebras de palavras, repetições de sílabas, alternância de imagens, construção de sintagmas isolados.
A regravação de "Brasil Pandeiro" soa menos épica que a dos Anjos do Inferno. Li no fascículo da coleção "História da Música Popular Brasileira" dedicado a Assis Valente que essa canção seria uma espécie de "Lusíadas" da MPB, celebrando o samba e a brasilidade. De fato, a versão dos Novos Baianos respeita essa força da canção, mas isso aparece mais na pulsação do refrão. Nas estrofes, a linha de violão de Moraes Moreira parece levar o arranjo para uma perspectiva maior de elaboração, mais bossa nova ou jazz.
Há mais a dizer sobre as outras faixas, mas para destacar o que eu queria, creio que é suficiente.
Há mais a dizer sobre as outras faixas, mas para destacar o que eu queria, creio que é suficiente.
Este é considerado em algumas listas como o melhor álbum da música pop brasileira. Tem méritos para isso, embora eu discorde, pensando no primeiro dos Secos & Molhados, no "Grande Circo Místico" e em alguns do Milton da década de 1970.
De resto, é ouvir.

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