sábado, 28 de agosto de 2010

( ), do Sigur Rós

Quando foi lançado o álbum ( ) do Sigur Rós, eu já conhecia a banda e já era fã. Tinha, assim, expectativas muito altas em relação a esse trabalho.
Ao ouvi-lo pela primeira vez, fiquei um tanto quanto perdido, além de absolutamente surpreso. Musicalmente, era um trabalho de concepção mais etérea, de climas mais flutuantes. Mas minha avaliação ficara prejudicada pela forma como tive contato com esse material belíssimo e ambicioso. Eu apenas ouvira as faixas do disco, em ordem aleatória, compactadas em mp3, sem ter contato com o material impresso, as letras, o encarte. Na verdade, aquela sonoridade fazia parte de uma concepção bem mais arrojada. Eu estava sendo introduzido ao mais essencial e puro Sigur Rós, ao mais Sigur Rós de todos os trabalhos do Sigur Rós.
E por quê? Porque esses islandeses doidos invadiram um espaço na música pop que ninguém ainda havia explorado. Eles levaram a canção ao limite do jogo entre a entoação da melodia da voz e a harmonia musical que a enquadra. Mas mantiveram o aspecto de canção, embora com claros flertes com o progressivo e a música erudita. Dentro dessa proposta, ao optarem por cantar em islandês, criaram uma perspectiva diferenciada: embora os fãs, a princípio, pudessem mergulhar na intensidade das músicas, assimilando um conteúdo emocional, desconheciam o contexto dado pelas letras, perdendo um conteúdo mais conceitual e racional. Se é que é possível isso, o Sigur Rós conseguiu libertar sua música pop do direcionamento dado pela letra e partir para a quase total intuição na fruição das sugestões melódicas. Um feito e tanto.
E justamente em ( ) essa proposta se estende ao material de apresentação do álbum. Pelo que verifiquei depois, a abstração e o convite ao preenchimento dos vazios de sentido pelo ouvinte atingem o grau máximo. O álbum não tem exatamente um nome, mas um símbolo gráfico que o representa. Nenhuma das faixas recebe denominação alguma. No encarte, há espaço para que o próprio fã preencha as "letras" das canções com aquilo que ele acha que elas querem dizer. Porque na verdade não há letras, propriamente, já que elas são cantadas numa língua inventada. Uma concepção bastante ousada, sem dúvida, mas nem um pouco descolada do que é e sempre foi o trabalho da banda.
Como sou fã, entrei no jogo. Ouvi novamente o álbum e anotei as impressões que me ficaram de cada uma das músicas. Sei que soa pretensioso e sem finalidade, uma vez que os próprios integrantes da banda já propuseram nomes (e, portanto, guias de sentido e assimilação) para cada uma das faixas. Eu os li uma vez, mas esqueci. E aproveitei esse esquecimento para tentar produzir uma fruição toda minha da narrativa dessa grande obra. Saiu mais ou menos assim:

Untitled 1 - Soa como um sofrido desespero de ternura, como alguém que ama e não sabe como dizer o que sente.
Untitled 2 - Remete a algum tipo de desconfiança, de inquietação com o comportamento de outrem.
Untitled 3 - para mim, percepções ondeantes da realidade, alterações da consciência.
Untitled 4 - Consolo e convicção de que se deve ir em frente apesar da dor. Destaque para o lindíssimo trabalho vocal de Jónsi. É uma canção muito forte.
Untitled 5 - Lembra um pedido de ajuda de alguém que está enfraquecido.
Untitled 6 - Jónsi parece entoar algo como "você precisa saber que eu te amo". Para mim, é a música mais pop das oito.
Untitled 7 - A voz aqui carrega uma mágoa desesperada, nessa música que é muito intensa, a segunda melhor do trabalho.
Untitled 8 - Cobrança de posicionamento e anúncio de uma grande reviravolta. Para mim, o ponto alto de ( ). Aqui reconhece-se a grandiloquência épica de outras músicas, em outros álbuns, como Glosóli, de Takk, e Viorar vel til loftarasa, de Agaetys Byrjun. (Se eu errar os nomes, corrijo depois, porque o spelling deles não é mole).

Recomendo audição e até aquisição em loja além do download. Excelente.

sábado, 19 de junho de 2010

Embryonic, do Flaming Lips

Num tempo de rebolations e vuvuzelas, resolvi prestar atenção em uma banda que faz um som totalmente fora das modas atuais e que, por isso, provavelmente nunca alcançará estrelato e holofotes. Saiu o disco Embryonic, do Flaming Lips, que posso, sem medo de errar, elogiar como uma das mais bem feitas obras do rock nos últimos tempos.
O Flaming Lips tirou o nome da banda de uma música do primeiro disco do Pink Floyd, fase psicodélica e anticomercial. Essa citação já mostra a praia dos rapazes, que é o rock experimental, viajado, pesquisado, bem ao estilo daquilo que entendo como Art Rock (e que se popularizou dentro da etiqueta "progressivo"). O que me surpreendeu em Embryonic, portanto, não foi essa tentativa de retomar o projeto do rock de arte; essa é uma característica de todos os trabalhos do Flaming Lips. O que me surpreendeu foi a força extraordinária do álbum. Várias das faixas atingem um nível de elaboração e psicodelia comparáveis aos dos melhores trabalhos de Pink Floyd ou King Crimson. Há músicas realmente muito boas, e, além disso, o disco funciona como um todo conceitualmente coerente. É complicado afirmar que será ou não um clássico, porque os álbuns no formato CD são mais longos, e é mais difícil atingir a excelência na unidade de todas as faixas nos tempos atuais. Mas duas coisas são certas. Uma é que o Flaming Lips merece toda nossa consideração por ressuscitar com louvor o espírito do rock experimental e artisticamente elevado, num tempo em que o apelo comercial parece destruir praticamente tudo o que ainda pode ser minimamente criativo. A outra é que Embryonic é muito bom, tem qualidade comparável à de trabalhos do Radiohead, do Arcade Fire ou do Sigur Rós, e ainda que seja talhado para melhorar depois de várias audições, conseguiu me impressionar como poucos álbuns nos últimos tempos.