domingo, 27 de novembro de 2016

Zélia Duncan, de Zélia Duncan




Primeiro CD que comprei com meu primeiro salário de estagiário. Marcante em vários sentidos, continua lindo mais de vinte anos depois do lançamento (1994). Por muito tempo, foi minha referência de MPB pós-80. Considero que seja o trabalho menos saturado e mais equilibrado de Zélia, com baladas de amor, canções dançantes, flertes com o jazz, o soul, o reggae e o brega pop. Recomendo sem contraindicações. 

Faixa por faixa:

Não vá ainda - Um dos fonogramas mais bonitos que conheço. Arranjo de bandolins, percussão leve na segunda metade da canção, letra sentida e sem rodeios. Intensa e crescente, canção que merecia mais sucesso do que teve, mesmo dentro do repertório de Zélia Duncan.

O meu lugar - Letra muito boa. Interpretação doce e emotiva.

Sentidos - Canção que parece jogar com a oposição contenção/explosão. A letra remete à intensidade, mas o arranjo segura a explosão até o final. O trabalho de bateria é o grande responsável pela força dessa faixa.

Nos lençóis desse reggae - Melhor das canções dançantes do álbum. Não tem uma letra tão sensível, mas o ritmo gostoso compensa com sobras.

Catedral - Arranjo etéreo e sensível para uma interpretação arrebatadora. Mega hit do álbum.

Improvável - Canção mais dançante, com vocal um pouco mais soul, e temática associada ao prazer erótico. Boa letra, levada bacana.

Lá vou eu - Adoro essa música. Letra fantástica da Rita Lee. Balada gostosa, com a cara da noite de São Paulo. Ideal para apresentações em bares.

Miopia - Outra letra sensacional, descrição de um momento mais sutil, próximo do banal, mas poeticamente recuperado. Solo fantástico de guitarra. Arranjo que valoriza a pouca intensidade do vocal doce. 

Tempestade - Canção francamente dançante, com parte falada e vocal. É a que menos chama minha atenção no álbum. E ainda assim é boa.

Um jeito assim - Canção mais jazzística e malandra, sensual, com bela levada de violão e intepretação precisa e sensível. Lembra standards do jazz.

Am I blue for you? - Gosto da pulsação. Não deve nada às interpretações das canções pop americanas mais cultuadas por aqui. Bela versão de Zélia.

Eu nunca estava lá - Peça mais reflexiva, tratando das dores de amor, violão e voz. Belo arranjo. Mantém a suspensão de intenção durante todo o fonograma. Finaliza o álbum com a suspensão, deixando um gosto de incompletude a ser sanada no próximo trabalho.

sábado, 26 de novembro de 2016

Aqui começa o inferno, dos Zumbis do Espaço



Quem me conhece um pouco sabe que sou uma pessoa que tende a passar uma impressão de seriedade. Quem me conhece mais que esse pouco sabe que, sem prejuízo dessa capa, sou piadista, brincalhão e dou risada de quase tudo.
Ouvir os Zumbis do Espaço para mim é fantástico, porque eles conseguem conversar com esse lado engraçado que tenho. E fazem de um  jeito ímpar.
O rock que apresentam é despretensioso, sem deixar de ser bem feito. Mas o forte deles são as letras com temas macabros e violentos. Em vez de glorificar esses temas e criar um clima de tensão ou dramaticidade, os Zumbis falam dessas coisas de forma direta, explícita, desnudada. Escancarada, eu diria. Dessa maneira, cria-se um pastelão de narrativas de morte, violência e obscuridade, uma paródia do peso mórbido de muitos estilos roqueiros. Fica engraçadíssimo.
Fazer uma composição com a sagacidade que eles fazem é tão difícil quanto fazer uma canção de amor criativa ou uma peça de rock pesado com tons sinfônicos. É um processo de composição diferente, parodístico, mas nem por isso menos brilhante na inteligência.
Ouça com o espírito de não levar a sério e você pode se divertir a valer.
A "Balada do Pistoleiro" é sensacional.

domingo, 13 de novembro de 2016

+ - , do Mew




Descobri essa banda dinamarquesa graças às dicas do LastFM, há muito tempo atrás. Lembrei deles por qualquer razão que não saberia dizer agora, e resolvi sondar o que eles vêm produzindo. Encontrei o disco + - no Spotify, e botei na vitrolinha virtual.

O que mais me chama a atenção na banda é a fantástica tessitura do vocalista Jonas Bjerre, que consegue transitar das regiões médias às mais agudas sem aquelas explosões de esforço e berraria que caracterizam muitas vezes os cantores com baixa confiança. Ao explorar as frequências mais altas, a voz de Bjerre soa suave e delicada quando necessário, e enérgica quando ele quer, mantendo sempre um timbre agradável e personalíssimo.

Nesse álbum, além de Bjerre, muitas outras coisas são notáveis. Quando você começa ouvindo as canções na ordem proposta, as primeiras canções parecem boas canções pop, com arranjo criativo e muito colorido musical. Aos poucos, as canções se tornam mais pesadas, intensas, longas, tendendo para uma pegada mais próxima do rock progressivo, e aí que a banda revela seus maiores dons. "Water Slides", "Rows" e "Cross the River on Your Own" são grandes trabalhos em termos de sentimento, evolução melódica e bom gosto nas escolhas.

Li algumas críticas no AllMusic. Uma em particular detona este álbum, dizendo que o Mew repetiu as fórmulas dos anteriores. Escrevo com a impressão honesta de quem não ouviu os anteriores e achou este muito bom. O que me leva a crer que ficarei encantado com o que veio antes.

Concordo, em partes, com certo incômodo do crítico em relação ao excesso de eletrônica e recursos de estúdio nas primeiras faixas, mas acredito que a beleza das melodias tenha compensado essa orientação.

Vale a visita.

Tem o site da banda. O álbum está disponibilizado em streaming pelo Spotify, junto com os anteriores.

http://mewsite.com