Sobre este clássico de poucas faixas do Free, devo dizer que aprecio a dosagem. São canções com temas clássicos do blues, a maioria sobre desilusões amorosas, mas também sobre encontros divertidos, como "All right now", e inimizades, como "Mr. Big". Elas rendem tremendamente nas mãos dos quatro integrantes desta grande banda.
Paul Rodgers tem a maior qualidade de um vocalista: colocação de voz adequada à intenção da interpretação. Ele faz miséria cantando, mas o ouvinte não sente isso como exibicionismo injustificado. Ele canta de dentro da música, de dentro da intenção da letra, para fora, expandindo a emoção que ali está, sem corrompê-la pelo apelo injustificado à potência ou amplitude vocal.
Paul Kossof tem a maior qualidade de um guitarrista: a compreensão de trabalhar para um todo sonoro maior que as partes. Os riffs sensacionais, a levada precisa e os solos muito bem colocados também fazem com que esqueçamos do item "guitarra" no meio de tudo que estamos ouvindo para lembrar apenas da força da canção executada. Não é que não notamos a qualidade incrível do que ele faz. A questão é que essa qualidade só sobressai e ganha sentido no conjunto.
O resultado desse casamento, considerando ainda os talentos de Andy Fraser (vide solo de baixo fantástico em "Mr. Big") e Simon Kirke, é um álbum que aponta sempre para a direção do blues-rock, e ao mesmo tempo consegue dosar, mantendo esse foco, uma série de possibilidades de interpretação vocal e execução dos instrumentos que encorpam as músicas e agregam-lhes personalidade.
"All right now" não merecia ser a faixa mais executada, embora seja muito bacana. A construção paulatina do clima em "Don't say you love me" avulta como momento mais marcante do trabalho, em minha opinião. "Heavy load" também é sensacional, com destaque para a letra sentida e dramática. "Fire and water" e "Oh, I wept" lembram-me as melhores lamentações da pegada blues.
Enfim, grande álbum (pequeno, na verdade, mas grandioso).
Para curtir com atenção.

