sábado, 21 de outubro de 2017

The Joshua Tree, do U2




Você pode não considerar U2 uma de suas bandas preferidas, ou mesmo não considerar The Joshua Tree como um dos melhores álbuns do U2. É perfeitamente compreensível, pois há gostos distintos entre os apreciadores de rock, e fases distintas em que o U2 apresentou trabalhos com consistência musical. Mas creio que The Joshua Tree é aquele disco que faz com que, hoje, mesmo aqueles fãs menos fervorosos, ou até os roqueiros que torcem o nariz, coloquem sem muita discussão o U2 como uma das 10 bandas de quarenta anos para cá, e uma das 20 de toda a história do rock. Mais que uma coleção de hits irresistíveis ("With or without", "I still haven't found what I'm looking for") ou uma seleção consistente de clássicos para os fãs mais exigentes ("Running to stand still", "One three hill", "Red hill mining town"), The Joshua Tree é uma estrutura bem concatenada, bem construída como narrativa na ordem de audição, e, sobretudo, muito uniforme na sonoridade e na intenção.
Eu tinha 14 anos quando conheci o U2, por meio da cerimônia do Grammy. Como adolescente preguiçoso, guardei os hits no coração e só fui ouvir o álbum completo muito tempo mais tarde, já aos 19, mesmo com insistência de sugestão de meus colegas do ensino médio e mesmo já tendo informação da unanimidade crítica conquistada por Bono e cia. com esse trabalho. Quando ouvi, foi interessante sentir uma expectativa altíssima ser correspondida.
The Joshua Tree nasceu clássico. Quem o ouviu no lançamento, cinco anos depois, dez anos depois, teve a mesma impressão. Para mim, é uma lição de pop rock. Beleza, poesia, intensidade e entrega estão espalhadas nas faixas, mas isso não se consegue por acaso. A inteligência e a sensibilidade dos arranjos são impressionantes. As canções são musicalmente simples, poucos acordes, nada de virtuosismo, mas Bono e The Edge conhecem a fórmula da expressividade. Cada faixa pulsa, agride, sugere, toca, expõe. Os arranjos são estupendos. "With or without you", por exemplo, evolui numa mesma sequência de quatro acordes quase a música inteira, mas praticamente nenhuma ocorrência é igual, pois cada uma delas recebe uma densidade, um enriquecimento de detalhes e um tratamento harmônico diferentes. O resultado é que o ouvinte sente a canção crescer e recuar com a voz de Bono, na medida daquilo que precisa ser dito. Não é diferente com as outras dez músicas. Ao fim, nos deparamos com uma sucessão de acertos tão impressionante que não conseguimos passar impunes por ela. Sustentadas por essa uniformidade musical que sugere melancolia e dor, as ideias de deslocamento, busca e superação das dificuldades da vida dialogam com belíssimas imagens de esperança e fusão com a natureza, sempre tendo a paisagem do deserto, com seus ventos, montes e estrelas, como elemento de costura.
Gosto de Unforgettable Fire, acho Achtung Baby sensacional, mas reconheço U2 como U2, no que tem de melhor, em The Joshua Tree
Parabéns pelos 30 anos. Viverá muito mais que isso.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cinema transcendental, de Caetano Veloso




Trabalho magnífico de Caetano, este álbum de 1979 traz algumas das canções mais simpáticas que ele compôs. Como um todo, impressiona pela coesão. A maioria das canções é de celebração, mas a celebração de Caetano não é mera alusão às qualidades do que é celebrado; pelo contrário, ele aposta sempre em fazer jus a essas qualidades com uma poesia refinada e um senso de observação que extrapola o imediato e o óbvio. Assim, o "Menino do rio" é mais que alguém interessante: torna-se uma doce e terna homenagem à beleza dos moços das praias sintetizada em uma figura facilmente reconstruída na imaginação, mas dificilmente referida com a maestria do compositor. "Trilhos Urbanos" é a que mais está adequada ao título do álbum, porque lembra de fato o cinema, como se aludisse a cenas de um filme passando na memória. A melodia é tão linda e a letra casa tão bem com o arranjo que a considero umas das melhores de toda a obra de Caetano (e isso é uma valoração e tanto!). "Oração ao tempo", sacada sensacional, personifica o Tempo num diálogo que mistura pedidos e confirmações. "Lua de São Jorge" tem aquela pulsação dançante, comum ao conjunto das músicas do disco, mas nasceu clássica para carnavais e rádios, por sua beleza rítmica e por sua letra cativante. Das menos conhecidas, "Badauê" funciona como uma vinheta experimental, "Os meninos dançam" lembra um pouco Jorge Benjor, pela base harmônica simples com levada pulsante conduzindo uma letra longa e de encaixe complicado na melodia, "Aracaju" tem arranjo de sopros instigante. "Vampiro", a princípio, soaria como a mais deslocada entre as canções do álbum, por ser a menos pulsante, mas é sucedida por "Elegia" e, no fundo, ambas são experiências poético-musicais complementares. "Beleza pura" é autêntica música de rádio, mas melhor que a imensa maioria das músicas de rádio. "Cajuína" consagrou-se em outras versões, mas seu brilho verbal já é nítido nesta gravação do autor. E quanto a "Louco por você", parece romântica, jazzística e poética demais para uma primeira fruição. É a menos imediatamente simpática, mas todo grande trabalho musical tem de deixar uma pergunta no ar, uma razão para retornarmos a ele e não apenas gravarmos as faixas mais conhecidas em coletâneas, esquecendo da proposta conceitual em que foram geradas. "Louco por você" deixa essa abertura, com uma letra não convencional sobre o convencionalíssimo tema do amor não correspondido, amparada por um arranjo primoroso, piano, guitarra na medida, solos, variações na densidade etc.
"Cinema transcendental" tende agradar até aqueles que não curtem muito Caetano. É feito sob medida para deixar tocando várias vezes, até que se perceba que as simpáticas canções são mais profundas do que nos pareceram na primeira audição.

domingo, 8 de outubro de 2017

MCMDC, de Enigma




O fato de começar uma audição de CD com trechos em latim, francês e inglês já é significativo para mim, pois essas são as três línguas que eu deveria conhecer com real profundidade. Essa mistura de línguas é um dos detalhes interessantes de um projeto de misturas muito maior, envolvendo canto, fala, sussurro, canto gregoriano, teclados, guitarras, solos e efeitos. Com esse aparato à disposição, somado à concepção correta e coesa das intenções musicais, Enigma constrói em MCMDC (1990 em romanos) uma sucessão de climas sugestivos, por vezes tensos e eróticos, por vezes sombrios e melancólicos. 
Das pistas de dança ficaram as memórias de “Sadeness”, uma das partes da faixa “Principles of Lust”, inteiramente agradável e forte. Mas mesmo quando abstraímos a simpatia gerada pela memória afetiva, a música do álbum permanece com seu efeito sedutor e provocante. “The Voice and The shake” e “Knocking no forbidden doors” chacoalham o corpo e os sentimentos do ouvinte ao mesmo tempo, e são as melhores faixas do trabalho.
Enigma conseguiu a proeza de construir música ambiente com a pitada de provocação necessária para não passar despercebida. O interesse das inusitadas sobreposições de elementos sonoros e a sugestão de sexo, culpa e cumplicidade fazem com que o ouvinte desatento e ocasional fique com a pulga atrás da orelha, e procure decifrar a narrativa de recados sonoros oferecidas pelas músicas. 
Decifrar não é tão difícil. Difícil é entender a química dos sons que possibilitaram materializar essas sugestões, esse estilo singular e cativante que se mantém interessante 27 anos depois.