Você pode não considerar U2 uma de suas bandas preferidas, ou mesmo não considerar The Joshua Tree como um dos melhores álbuns do U2. É perfeitamente compreensível, pois há gostos distintos entre os apreciadores de rock, e fases distintas em que o U2 apresentou trabalhos com consistência musical. Mas creio que The Joshua Tree é aquele disco que faz com que, hoje, mesmo aqueles fãs menos fervorosos, ou até os roqueiros que torcem o nariz, coloquem sem muita discussão o U2 como uma das 10 bandas de quarenta anos para cá, e uma das 20 de toda a história do rock. Mais que uma coleção de hits irresistíveis ("With or without", "I still haven't found what I'm looking for") ou uma seleção consistente de clássicos para os fãs mais exigentes ("Running to stand still", "One three hill", "Red hill mining town"), The Joshua Tree é uma estrutura bem concatenada, bem construída como narrativa na ordem de audição, e, sobretudo, muito uniforme na sonoridade e na intenção.
Eu tinha 14 anos quando conheci o U2, por meio da cerimônia do Grammy. Como adolescente preguiçoso, guardei os hits no coração e só fui ouvir o álbum completo muito tempo mais tarde, já aos 19, mesmo com insistência de sugestão de meus colegas do ensino médio e mesmo já tendo informação da unanimidade crítica conquistada por Bono e cia. com esse trabalho. Quando ouvi, foi interessante sentir uma expectativa altíssima ser correspondida.
The Joshua Tree nasceu clássico. Quem o ouviu no lançamento, cinco anos depois, dez anos depois, teve a mesma impressão. Para mim, é uma lição de pop rock. Beleza, poesia, intensidade e entrega estão espalhadas nas faixas, mas isso não se consegue por acaso. A inteligência e a sensibilidade dos arranjos são impressionantes. As canções são musicalmente simples, poucos acordes, nada de virtuosismo, mas Bono e The Edge conhecem a fórmula da expressividade. Cada faixa pulsa, agride, sugere, toca, expõe. Os arranjos são estupendos. "With or without you", por exemplo, evolui numa mesma sequência de quatro acordes quase a música inteira, mas praticamente nenhuma ocorrência é igual, pois cada uma delas recebe uma densidade, um enriquecimento de detalhes e um tratamento harmônico diferentes. O resultado é que o ouvinte sente a canção crescer e recuar com a voz de Bono, na medida daquilo que precisa ser dito. Não é diferente com as outras dez músicas. Ao fim, nos deparamos com uma sucessão de acertos tão impressionante que não conseguimos passar impunes por ela. Sustentadas por essa uniformidade musical que sugere melancolia e dor, as ideias de deslocamento, busca e superação das dificuldades da vida dialogam com belíssimas imagens de esperança e fusão com a natureza, sempre tendo a paisagem do deserto, com seus ventos, montes e estrelas, como elemento de costura.
Gosto de Unforgettable Fire, acho Achtung Baby sensacional, mas reconheço U2 como U2, no que tem de melhor, em The Joshua Tree.
Parabéns pelos 30 anos. Viverá muito mais que isso.


