O fato de começar uma audição de CD com trechos em latim, francês e inglês já é significativo para mim, pois essas são as três línguas que eu deveria conhecer com real profundidade. Essa mistura de línguas é um dos detalhes interessantes de um projeto de misturas muito maior, envolvendo canto, fala, sussurro, canto gregoriano, teclados, guitarras, solos e efeitos. Com esse aparato à disposição, somado à concepção correta e coesa das intenções musicais, Enigma constrói em MCMDC (1990 em romanos) uma sucessão de climas sugestivos, por vezes tensos e eróticos, por vezes sombrios e melancólicos.
Das pistas de dança ficaram as memórias de “Sadeness”, uma das partes da faixa “Principles of Lust”, inteiramente agradável e forte. Mas mesmo quando abstraímos a simpatia gerada pela memória afetiva, a música do álbum permanece com seu efeito sedutor e provocante. “The Voice and The shake” e “Knocking no forbidden doors” chacoalham o corpo e os sentimentos do ouvinte ao mesmo tempo, e são as melhores faixas do trabalho.
Enigma conseguiu a proeza de construir música ambiente com a pitada de provocação necessária para não passar despercebida. O interesse das inusitadas sobreposições de elementos sonoros e a sugestão de sexo, culpa e cumplicidade fazem com que o ouvinte desatento e ocasional fique com a pulga atrás da orelha, e procure decifrar a narrativa de recados sonoros oferecidas pelas músicas.
Decifrar não é tão difícil. Difícil é entender a química dos sons que possibilitaram materializar essas sugestões, esse estilo singular e cativante que se mantém interessante 27 anos depois.

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