terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Songs of Experience, do U2




Algum tempo depois de ter visto o irretocável show de comemoração dos 30 anos do álbum The Joshua Tree, consegui um espaço nas rotinas para ouvir o bom álbum de 2017, Songs of Experience. Apesar do título, há pouco de climático, experimental, conceitual ou programadamente oscilante no trabalho. O álbum está mais para mais uma reunião de canções do que para um resultado de qualquer princípio de criação costurado por elas. Há boas canções pop, e menos rock. Ou talvez rock mais pop, menos gritado, menos explosivo nos refrões e nas entradas de guitarra. A voz de Bono assume um timbre mais agudo e coloca-se de forma menos rasgada. Os arranjos são bem equilibrados, e as faixas alternam intenções musicais com competência, garantindo o colorido da ordem de audição. Mesmo fazendo um álbum com quase todas as características sonoras que consagraram a banda, o U2 parece ter optado por certa economia nas dinâmicas e nas execuções, o que pode tornar a música mais agradável e propícia para a execução em rádio e TV, mas ao mesmo tempo menos marcante para o fã-clube construído ao longo dos anos.
As três primeiras faixas formam uma excelente comissão de frente, e lembro de ter ouvido a terceira no show, com recepção respeitosa do público. "Lights of Home" teria lugar nos melhores álbuns da banda, em que pese lembrar um pouco o Coldplay. "The Little Things That Give You Away" é muito boa e pode se tornar hit. "Landlady" lembra canções do Unforgettable Fire.  "13 (There is a light)" tem uma beleza doce e triste. "Book of your heart"utiliza o recurso da dobra de voz de Bono em oitava, que considero umas das mais belas marcas da banda.
Não se pode exigir do artista a produção de um clássico por ano. O U2 já fez pelo menos uns cinco álbuns clássicos do rock e do pop. Este Songs of Experience não me parece ocupar esse patamar com eles. Talvez a experiência evocada no título seja justamente a noção de que deve-se fazer o que se pode, da melhor maneira possível, e de que cada momento da vida de uma banda exige uma resposta adequada sonoramente, que nem sempre será a mais estimulante ou a mais intensa. De qualquer forma, acaba sendo injusto comparar o U2 consigo mesmo, dada a estatura que a banda adquiriu; as canções de Songs of Experience podem ser ouvidas, hoje, por qualquer iniciante em U2 como boas canções. Comovem, empolgam e agradam na medida do nível de exigência atual do pop, até um pouco acima.
Gostei bastante.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Sigur Rós, Popload Gig, Espaço das Americas, 29 de novembro de 2017



Poder ver o Sigur Rós ao vivo depois de 20 anos de espera é uma das sensações mais gratificantes para qualquer fã brasileiro. Acessar as músicas da banda via Spotify ou troca de arquivos é fácil, ver os clipes e as produções visuais na internet também. Porém, sempre tive muita dificuldade enquanto colecionador para adquirir os CDs e LPs de carreira da banda, nas versões especiais que circularam na página deles e nas lojas virtuais por aí. Como fã, isso me deixou um pouco frustrado, dado o carinho que tenho por todo o material que produzem. Até hoje aguardo alguma estabilização da moeda que me permita adquirir a música dos islandeses nos suportes devidos, pensados artisticamente como tudo o que fazem.
Feito o desabafo, revelo que, no dia 29 de novembro, após ouvir a quarta canção, eu já estava em prantos. A intensidade do show arrebata qualquer um. Música, luzes e concentração constituem um clima único, que não vi em nenhuma apresentação de banda que prestigiei (nem no U2, nem no Coldplay, nem em mais ninguém. Quem pode acompanhar o show, presenciou um espetáculo único, musicalmente formidável, que não pode ser repetido nem imitado por nenhuma outra banda que conheço simplesmente porque é singular em sua proposta.
A força da música do Sigur Rós está na liberdade com os timbres e as dinâmicas. Sim, quem conhece a banda sabe o quanto são sensíveis os arranjos e os vocais. Mas ao vivo tudo isso fica mais forte, tanto pelas possibilidades de volume, quanto pelas escolhas de foco e dispersão da iluminação sobre o palco.
A versão curta de "Festival" parece-me pensada para ser mais agressiva na parte final. "Saeglóplur" e "Glósóli", por usa vez, soam tão pops quanto nos álbuns. Pessoalmente, considero perfeitamente adequado o encerramento do show com "Poppalagid", que é a minha preferida de todos os trabalhos. Quando eles deixam o palco e o jogo de luzes acompanha a extensão das notas finais da música ainda por alguns minutos, vivenciamos um autêntico final apoteótico. 
Musicalmente, não conheço nada melhor no mundo pop. 
É minha banda preferida, e eu pude vê-la ao vivo. Ponto.