Quando Marisa Monte lançou seus primeiros discos, lembro que se tornou uma febre entre os que gostavam de MPB. A excelência de sua voz, de suas escolhas musicais e de seu repertório eram impressionantes. Por essa época, lembro-me de um crítico de uma revista de grande circulação dizer que a diferença entre ela e as outras divas da MPB (Gal, Simone, Bethânia) é que ela não se escondia atrás do que chamávamos de estilo, sendo capaz de interpretar muitas canções de gêneros diferentes sem "distorcê-las" para se parecerem com as canções de seu repertório. Considerei esse comentário, na época, uma grossura e um exagero pueril, mas por trás do histrionismo do crítico havia uma percepção correta de que Marisa transitava entre diversos gêneros com muita facilidade.
Essa é, obviamente, uma grande virtude da cantora, mas há um preço nesse trânsito, que é transformar os álbuns em excelentes coleções de canções que brilham individualmente, mas que não necessariamente formam um conceito sonoro integrado. Evidentemente, não se trata de criticar quaisquer dos trabalhos de Marisa até então, irretocáveis em tudo, inclusive na seleção do repertório. Trata-se de pensar que, notadamente nos três primeiros discos, há muitas canções muito boas e de rápida "absorção", colocadas uma em seguida da outra, o que nos faz ter a impressão de ouvirmos uma coletânea. Às vezes, o artista não quer fazer uma coletânea, não quer colocar dez ou quinze canções de rádio ou de impacto em um disco. Às vezes o artista quer usar canções que não têm tanto apelo comercial, que deixam uma dúvida no ouvinte ou que simplesmente expressam uma faceta até então inexplorada e deixada em segundo plano porque tudo o que foi feito até aquele momento vinha dando muito certo.
Em 2006, Marisa Monte arriscou, saiu do estilo-acima-dos-estilos que construíra para expectativa de seus fãs e lançou dois trabalhos, um disco de samba chamado "Universo ao meu redor" e um disco de composições próprias, "Infinito particular". São trabalhos que se complementam. Se o ouvinte tiver tempo para ouvir os dois discos em sequência, coisa rara nesse mundo em que ninguém para por causa de uma única canção sequer, não se arrependerá. Percebe-se que a pulsação do samba de um é compensada pelas escolhas etéreas e orientalizantes do outro. É uma experiência que vale a pena.
Sobre esses trabalhos, contra todas as opiniões dos críticos e do público, digo que são o melhor de Marisa Monte. Em especial, considero seu álbum de canções autorais primoroso. "Infinito particular" é altamente passional, com letras sensíveis, às vezes abstrativas, às vezes lúdicas, e com uma direção clara do começo ao fim, que é a exploração das vivências interiores. Dentro dessa linha definida, há canções melhores e piores, há canções mais ou menos radiofônicas ("Vilarejo" e "Pelo tempo que durar" são as mais redondinhas para a rádio), mas há também mais riqueza de arranjo, mais abertura para o diferente, mais experiência com as melodias. A voz de Marisa encontra a melodia de Marisa, com linhas que valorizam a precisão, a técnica e a singeleza da cantora. O ouvinte percebe que houve um investimento em uma ideia, que essa ideia rendeu e que o artista assumiu os riscos de sair da zona de conforto e oferecer algo que exige uma audição menos imediatamente "padrão pop". Parece-me que Marisa diz, com essas canções, muito do que quer dizer enquanto artista, considerando que sua condição de intérprete é apenas uma parte de sua condição maior de artista. As razões de esse álbum ter feito menos sucesso que os outros não são muito claras para mim, mas acredito que seja o primeiro trabalho de Marisa que não tem cara de coletânea, ou seja, as canções não se ofuscam mutuamente, têm peso e forças diversas e parecem encontrar um lugar balanceado na ordem de audição proposta. Eu diria que a chave é a manutenção do clima de enlevo, da primeira à última faixa. Além das que já citei, destaco "Pernambucobucolismo", exemplo de canção brilhante e não radiofônica, a faixa-título e a instigante "Aquela". "Pelo tempo que durar" é uma pequena obra-prima sobre permanência e transitoriedade, sabiamente colocada como última faixa, e mais sabiamente ainda utilizada na cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio.
O universo musical de Marisa revela-se com poesia e gigantesca dose de musicalidade como sendo esse "Infinito particular", com mais cara de cosmos que de constelação.




