terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Infinito particular, de Marisa Monte




Quando Marisa Monte lançou seus primeiros discos, lembro que se tornou uma febre entre os que gostavam de MPB. A excelência de sua voz, de suas escolhas musicais e de seu repertório eram impressionantes. Por essa época, lembro-me de um crítico de uma revista de grande circulação dizer que a diferença entre ela e as outras divas da MPB (Gal, Simone, Bethânia) é que ela não se escondia atrás do que chamávamos de estilo, sendo capaz de interpretar muitas canções de gêneros diferentes sem "distorcê-las" para se parecerem com as canções de seu repertório. Considerei esse comentário, na época, uma grossura e um exagero pueril, mas por trás do histrionismo do crítico havia uma percepção correta de que Marisa transitava entre diversos gêneros com muita facilidade.
Essa é, obviamente, uma grande virtude da cantora, mas há um preço nesse trânsito, que é transformar os álbuns em excelentes coleções de canções que brilham individualmente, mas que não necessariamente formam um conceito sonoro integrado. Evidentemente, não se trata de criticar quaisquer dos trabalhos de Marisa até então, irretocáveis em tudo, inclusive na seleção do repertório. Trata-se de pensar que, notadamente nos três primeiros discos, há muitas canções muito boas e de rápida "absorção", colocadas uma em seguida da outra, o que nos faz ter a impressão de ouvirmos uma coletânea. Às vezes, o artista não quer fazer uma coletânea, não quer colocar dez ou quinze canções de rádio ou de impacto em um disco. Às vezes o artista quer usar canções que não têm tanto apelo comercial, que deixam uma dúvida no ouvinte ou que simplesmente expressam uma faceta até então inexplorada e deixada em segundo plano porque tudo o que foi feito até aquele momento vinha dando muito certo.
Em 2006, Marisa Monte arriscou, saiu do estilo-acima-dos-estilos que construíra para expectativa de seus fãs e lançou dois trabalhos, um disco de samba chamado "Universo ao meu redor" e um disco de composições próprias, "Infinito particular". São trabalhos que se complementam. Se o ouvinte tiver tempo para ouvir os dois discos em sequência, coisa rara nesse mundo em que ninguém para por causa de uma única canção sequer, não se arrependerá. Percebe-se que a pulsação do samba de um é compensada pelas escolhas etéreas e orientalizantes do outro. É uma experiência que vale a pena.
Sobre esses trabalhos, contra todas as opiniões dos críticos e do público, digo que são o melhor de Marisa Monte. Em especial, considero seu álbum de canções autorais primoroso. "Infinito particular" é altamente passional, com letras sensíveis, às vezes abstrativas, às vezes lúdicas, e com uma direção clara do começo ao fim, que é a exploração das vivências interiores. Dentro dessa linha definida, há canções melhores e piores, há canções mais ou menos radiofônicas ("Vilarejo" e "Pelo tempo que durar" são as mais redondinhas para a rádio), mas há também mais riqueza de arranjo, mais abertura para o diferente, mais experiência com as melodias. A voz de Marisa encontra a melodia de Marisa, com linhas que valorizam a precisão, a técnica e a singeleza da cantora. O ouvinte percebe que houve um investimento em uma ideia, que essa ideia rendeu e que o artista assumiu os riscos de sair da zona de conforto e oferecer algo que exige uma audição menos imediatamente "padrão pop". Parece-me que Marisa diz, com essas canções, muito do que quer dizer enquanto artista, considerando que sua condição de intérprete é apenas uma parte de sua condição maior de artista. As razões de esse álbum ter feito menos sucesso que os outros não são muito claras para mim, mas acredito que seja o primeiro trabalho de Marisa que não tem cara de coletânea, ou seja, as canções não se ofuscam mutuamente, têm peso e forças diversas e parecem encontrar um lugar balanceado na ordem de audição proposta. Eu diria que a chave é a manutenção do clima de enlevo, da primeira à última faixa. Além das que já citei, destaco "Pernambucobucolismo", exemplo de canção brilhante e não radiofônica, a faixa-título e a instigante "Aquela". "Pelo tempo que durar" é uma pequena obra-prima sobre permanência e transitoriedade, sabiamente colocada como última faixa, e mais sabiamente ainda utilizada na cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio.
O universo musical de Marisa revela-se com poesia e gigantesca dose de musicalidade como sendo esse "Infinito particular", com mais cara de cosmos que de constelação.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Secos & Molhados (I), de Secos & Molhados




Seriíssimo candidato a melhor disco de música brasileira que já ouvi, este primor de trabalho só não recebe o carimbo definitivo neste momento por três razões. 
Primeiro, porque durante minha permanente tentativa de produzir música de qualidade, mesmo tendo esse disco como referência absoluta, jamais me passou pela cabeça fazer nada sequer parecido; com isso, creio ter sido menos influenciado por ele. Considero o clima, a coesão, os vocais e o Ney ímpares e inimitáveis, o que me fez nunca nem pensar em copiá-los. 
Segundo, porque trabalho com literatura, de forma que meu julgamento de um álbum que traz excelentes musicalizações de poemas (o que é muito difícil de se fazer) tem quase que obrigatoriamente pontos a mais em relação a outras realizações artísticas. É um grande desafio bem cumprido.
Por fim, porque gosto dos acordes simples e de canções mais pop, o que faz com que eu tenda a aderir mais rapidamente ao som dos Secos & Molhados que, por exemplo, ao de gênios experimentais como Arrigo ou compositores complexos como Gil. Estes devem ter até melhores ideias musicais em seus trabalhos, como outros também, mas os Secos & Molhados me "pegam" de forma mais definitiva.
Em função dessas ponderações, ainda deixo espaço para me perguntar se esse álbum é de fato o meu top da MPB, ou se "Clube da Esquina" e "O grande circo místico" não estariam no mesmo patamar, ou superior. Por enquanto, este ainda me vem como o número um.
O que destaco em cada faixa (ordem do CD, que é diferente da do vinil de 73):
1 - Sangue latino: a entrada do baixo marcando a pulsação, seguida do violão cheio e da voz do Ney são muito impactantes. E aí você ouve a letra, sensacional, desafiadora, representativa. Simples e poética, conquista seu corpo e sua atenção rápido.
2 - O vira: a lusitanidade e a brasilidade, complementando a latinidade explosiva da canção anterior. Festa com as criaturas da noite, com os mitos populares. Canção emblemática.
3 - O patrão nosso de cada dia: a pulsação fica menor, o acompanhamento de violão e a flauta trazem singeleza, e eis que ganha todo o destaque a voz do Ney, numa interpretação arrepiante, tanto nas partes mais intensas quanto naquelas mais contidas.
4 - Amor: poema musicado com competência, se transforma em canção empolgante, em grande parte pela linha de baixo. Jogo de vozes faz crescer a força da palavra de João Apolinário.
5 - Primavera nos dentes: sempre considerei essa canção próxima do rock progressivo, não apenas pela extensão da introdução, mas pela centralidade dos solos e das frases musicais e pela progressão do clima antes, durante e depois do canto. Letra (poema de João Apolinário) descomunal.
6 - Assim assado: tratar de racismo com tanta poesia e sutileza não é para qualquer um, ainda mais numa canção alegre e saltitante. Sabedoria na provocação.
7 - Mulher barriguda: autêntico rock'n'roll, deixando um ponto de interrogação no ouvinte em relação ao foco de observação da poesia de Solano Trindade. Falamos do futuro ou da mulher barriguda? Excelente arranjo.
8 - El Rey: canção pílula sobre poema pílula. Provocação breve, direta e incisiva, tanto mais pungente quanto mais certeira.
9 - Rosa de Hiroshima: ponto alto da interpretação de Ney Matogrosso no disco, melodia absurdamente linda sobre poema pesado de Vinicius de Moraes. O arranjo deixa a poesia fluir e brilhar.
10 - Prece cósmica: balada gostosa, com fantástico arranjo vocal e jogo esperto com as pausas e continuações. Bom recorte entoativo sobre o poema de Cassiano Ricardo.
11 - Rondó do Capitão: melodia infantil para poema-parlenda de Manuel Bandeira. Nesse sentido, adequação no ponto máximo. Ney canta num registro mais grave, e continua espetacular.
12 - As andorinhas: outra canção-poema-pílula, corte sensível e preciso que coloca a metáfora na mesa e sai de cena deixando a provocação no ar. Soa como uma afirmação pesada, e respeita a intensidade dos versos de Cassiano Ricardo.
13 - Fala: delicadíssima interpretação de Ney, com uma letra de doçura deliciosa, e um embalo que remete a um clima de afeto, conversa ao pé do ouvido, diálogo de pessoas queridas. O interessante é o conceito da letra estar associado à linguagem fática: muito sobre os interlocutores é dito na interpretação vocal e no arranjo, mas na verdade o conteúdo da letra é a própria preparação do ato de dizer. Lindo.

Muito à frente de seu tempo. Sempre.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Estado de Poesia, de Chico César




Ouvindo esse álbum, fiquei com a impressão de que sou desatualizado. Por duas razões. Primeiro pela sensação de que eu já deveria ter ouvido esse trabalho do Chico César há muito tempo. Segundo, pelas características do próprio trabalho: ele é atualíssimo na temática. Sem forçar a mão. Posso exemplificar fácil com duas canções que, sem problema algum, poderiam ser utilizadas para discutir questões do aqui e agora (janeiro de 2017): "No Sumaré", por exemplo, dialogaria com as transformações de paisagem propostas pela nova gestão da Prefeitura de São Paulo; "Reis do agronegócio" tem muito mais contundência em sua crítica que o samba-enredo carioca que gerou polêmica por apontar as ações abusivas de mega-agricultores. 
Mas tem muito mais que isso.
Tem samba, forró, canção, xote, frevo, uma variedade enorme de ritmos e melodias muito bem compostos, elaborados, arranjados e executados. A sequência de faixas não cansa o ouvinte, uma é completamente diferente da outra. 
Entre as faixas, o grande ponto em comum é a poesia de Chico César, suas sacadas, seus achados, suas brincadeiras, suas experimentações. Você não sai da audição de cada faixa sem uma novidade, uma provocação, uma ideia diferente, uma percepção original. 
Ótimo perceber que o cantor/compositor tem essa inquietude artística que lhe permite desafiar chavões e soluções fáceis. Há canções mais experimentais como um todo, outras menos. Entre as mais inovadoras, destaco "Caracajus".
Mas isso se equilibra com a sensibilidade profunda do poeta, que não está apenas experimentando sons e palavras, o que já seria uma virtude, mas também compondo percepções de mundo originais, inusitadas. Melhor exemplar nesse sentido é "A taça". Letra invejável para qualquer compositor.
"Estado de poesia" não é um título pretensioso para o álbum. Está na medida. Há muita poesia e muita qualidade. Nos últimos anos, vi pouquíssima coleção tão boa de canções. Tanto que estou terminando este texto com a impressão de que não fiz jus às belezas de cada canção que ouvi. Mas estou com pressa de compartilhar.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Acabou chorare, dos Novos Baianos




Musicalmente impecável, o disco é uma explosão de alegria, sentimento e, principalmente, liberdade. Parece de fato a expressão de uma comunidade de gente livre de espírito, convicta dos mesmos valores e mergulhada numa mesma ousadia de ser como é. 
A canção que sintetiza tudo isso, para mim: "Besta é tu".
Mas ninguém ali está alheio aos problemas sociais e aos perigos de uma ditadura assassina. Há várias alusões a isso nas letras, de forma muito sutil. 
Acontece que o grito de liberdade dos Novos Baianos é, por si só, um desafio ao seu tempo, porque desaprisiona pela alegria, sem ser alienado. Há muita vida e celebração da vida nas canções. Mas também há muito conhecimento e informação musical. Nas canções, há empolgação e energia tamanhas que as letras muitas vezes abrem caminho aos scats, para que o ritmo contagiante não dependa da extensão dos versos; há também elementos de bossa nova, tropicalismo e da MPB tradicional, recuperados num carnaval sonoro; há uma pulsação positiva e eufórica que dá unidade ao disco; e há o fator imponderável que é a química da mistura de todos esses quesitos num conjunto de canções que se complementam de forma coesa. O violão revolucionário e inovador de Moraes Moreira, a inteligência e o talento de Pepeu, o canto dengoso de Baby, as letras tremendamente sacadas de Luiz Galvão são alguns dos detalhes individuais que reforçam o conjunto e realizam os potenciais estéticos da proposta.
Vi, num programa da série "Por trás da canção", como foi feita "Acabou chorare", a menos saltitante das faixas. Pareceu-me uma colagem bem concatenada de ideias e brincadeiras, no espírito cinematográfico da tropicália ("Alegria, alegria") mas com menores pretensões de profundidade e mais sensação de delicadeza, trunfo difícil de conseguir quando se quer também alguma crítica política na letra. Luiz Galvão e Moraes foram engenhosos, e esse engenho revela muito do espírito de liberdade criativa que rodeia todo o trabalho do conjunto e que permite as quebras de palavras, repetições de sílabas, alternância de imagens, construção de sintagmas isolados.
A regravação de "Brasil Pandeiro" soa menos épica que a dos Anjos do Inferno. Li no fascículo da coleção "História da Música Popular Brasileira" dedicado a Assis Valente que essa canção seria uma espécie de "Lusíadas" da MPB, celebrando o samba e a brasilidade. De fato, a versão dos Novos Baianos respeita essa força da canção, mas isso aparece mais na pulsação do refrão. Nas estrofes, a linha de violão de Moraes Moreira parece levar o arranjo para uma perspectiva maior de elaboração, mais bossa nova ou jazz.
Há mais a dizer sobre as outras faixas, mas para destacar o que eu queria, creio que é suficiente.
Este é considerado em algumas listas como o melhor álbum da música pop brasileira. Tem méritos para isso, embora eu discorde, pensando no primeiro dos Secos & Molhados, no "Grande Circo Místico" e em alguns do Milton da década de 1970.
De resto, é ouvir. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Delírio, de Roberta Sá




A gravação é de 2015, bem recente, fato que me surpreendeu, por causa do estilo mais passadista (no melhor dos sentidos) dos arranjos.
Álbum excelente, de muito gosto. Presta tributo à história do samba, recuperando o espírito do samba romântico pré-pagode. Nesse sentido, acredito que preenche uma lacuna de refinamento no quadro geral do gênero, conseguindo ser romântico sem ser piegas e mantendo uma condução contida da linha de voz mesmo nas canções mais propensas a crescer nos refrãos e em partes mais agudas.
Muito esperta a escolha de compositores, bastante variada e representativa de várias épocas e possibilidades. Ali estão Arnaldo Antunes, dentre os bam-bam-bans atuais, Martinho da Vila, Capinam, Baden Powell, Paulo César Pinheiro e mestre Ataulfo, do samba toada. Os arranjos para as composições, dentro da linha do samba bem tocado e sem tanto peso na percussão, faz com que elas soem, às vezes, quase como chorinhos ("Um só lugar" é um chorinho mesmo, então não vale).
Roberta tem um timbre leve, bonito e único. Em canções mais temáticas e alegres, sua voz soa como a de Marisa Monte. Em canções mais sentidas e passionais, remete às melhores cantoras de fado.
Canta samba a seu modo, sem o vozeirão da Alcione, mas com muito sentimento. Com um repertório mais delicado e intimista, ela valoriza seu potencial de interpretação. Gosto mais das canções melancólicas que de faixas como "Boca em boca".
Destaco as seguintes faixas: "Não posso esconder o que o amor me faz", letra fantástica; "Amanhã é sábado", com percepção brilhante do cotidiano e todo o jeito Martinho de ser; "Feito Carnaval", com poesia de grande sensibilidade; e "Covardia", pequena obra-prima do mestre Ataulfo.
Me ganhou fácil.