Seriíssimo candidato a melhor disco de música brasileira que já ouvi, este primor de trabalho só não recebe o carimbo definitivo neste momento por três razões.
Primeiro, porque durante minha permanente tentativa de produzir música de qualidade, mesmo tendo esse disco como referência absoluta, jamais me passou pela cabeça fazer nada sequer parecido; com isso, creio ter sido menos influenciado por ele. Considero o clima, a coesão, os vocais e o Ney ímpares e inimitáveis, o que me fez nunca nem pensar em copiá-los.
Segundo, porque trabalho com literatura, de forma que meu julgamento de um álbum que traz excelentes musicalizações de poemas (o que é muito difícil de se fazer) tem quase que obrigatoriamente pontos a mais em relação a outras realizações artísticas. É um grande desafio bem cumprido.
Por fim, porque gosto dos acordes simples e de canções mais pop, o que faz com que eu tenda a aderir mais rapidamente ao som dos Secos & Molhados que, por exemplo, ao de gênios experimentais como Arrigo ou compositores complexos como Gil. Estes devem ter até melhores ideias musicais em seus trabalhos, como outros também, mas os Secos & Molhados me "pegam" de forma mais definitiva.
Em função dessas ponderações, ainda deixo espaço para me perguntar se esse álbum é de fato o meu top da MPB, ou se "Clube da Esquina" e "O grande circo místico" não estariam no mesmo patamar, ou superior. Por enquanto, este ainda me vem como o número um.
O que destaco em cada faixa (ordem do CD, que é diferente da do vinil de 73):
1 - Sangue latino: a entrada do baixo marcando a pulsação, seguida do violão cheio e da voz do Ney são muito impactantes. E aí você ouve a letra, sensacional, desafiadora, representativa. Simples e poética, conquista seu corpo e sua atenção rápido.
2 - O vira: a lusitanidade e a brasilidade, complementando a latinidade explosiva da canção anterior. Festa com as criaturas da noite, com os mitos populares. Canção emblemática.
3 - O patrão nosso de cada dia: a pulsação fica menor, o acompanhamento de violão e a flauta trazem singeleza, e eis que ganha todo o destaque a voz do Ney, numa interpretação arrepiante, tanto nas partes mais intensas quanto naquelas mais contidas.
4 - Amor: poema musicado com competência, se transforma em canção empolgante, em grande parte pela linha de baixo. Jogo de vozes faz crescer a força da palavra de João Apolinário.
5 - Primavera nos dentes: sempre considerei essa canção próxima do rock progressivo, não apenas pela extensão da introdução, mas pela centralidade dos solos e das frases musicais e pela progressão do clima antes, durante e depois do canto. Letra (poema de João Apolinário) descomunal.
6 - Assim assado: tratar de racismo com tanta poesia e sutileza não é para qualquer um, ainda mais numa canção alegre e saltitante. Sabedoria na provocação.
7 - Mulher barriguda: autêntico rock'n'roll, deixando um ponto de interrogação no ouvinte em relação ao foco de observação da poesia de Solano Trindade. Falamos do futuro ou da mulher barriguda? Excelente arranjo.
8 - El Rey: canção pílula sobre poema pílula. Provocação breve, direta e incisiva, tanto mais pungente quanto mais certeira.
9 - Rosa de Hiroshima: ponto alto da interpretação de Ney Matogrosso no disco, melodia absurdamente linda sobre poema pesado de Vinicius de Moraes. O arranjo deixa a poesia fluir e brilhar.
10 - Prece cósmica: balada gostosa, com fantástico arranjo vocal e jogo esperto com as pausas e continuações. Bom recorte entoativo sobre o poema de Cassiano Ricardo.
11 - Rondó do Capitão: melodia infantil para poema-parlenda de Manuel Bandeira. Nesse sentido, adequação no ponto máximo. Ney canta num registro mais grave, e continua espetacular.
12 - As andorinhas: outra canção-poema-pílula, corte sensível e preciso que coloca a metáfora na mesa e sai de cena deixando a provocação no ar. Soa como uma afirmação pesada, e respeita a intensidade dos versos de Cassiano Ricardo.
13 - Fala: delicadíssima interpretação de Ney, com uma letra de doçura deliciosa, e um embalo que remete a um clima de afeto, conversa ao pé do ouvido, diálogo de pessoas queridas. O interessante é o conceito da letra estar associado à linguagem fática: muito sobre os interlocutores é dito na interpretação vocal e no arranjo, mas na verdade o conteúdo da letra é a própria preparação do ato de dizer. Lindo.
Muito à frente de seu tempo. Sempre.

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