terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Realce, de Gilberto Gil

O disco Realce, trabalho de grande qualidade do inspirado Gilberto Gil nos idos dos 70, possui 9 faixas. Pelo menos 5 alcançaram grande sucesso nas rádios: "Não chore mais" (que acredito ser o maior sucesso da carreira de Gil), "Realce", "Toda menina baiana", "Superhomem, a canção" e "Marina". Esta última é, em meu modo de ver, a única faixa que não está à altura do todo do material. Creio que se ela e "Logunede" fossem substituídas por outras dentro da mesma sintonia de "Realce" e "Sarará Miolo", poderíamos ter um disco ainda mais forte. A despeito disso, do jeito que foi formatado, já é indispensável. É uma coleção de canções inéditas muito difícil de reunir para um lançamento. A seguir, observações sobre cada faixa:
Realce: alegre, para cima, bonita, excelente arranjo. Uma lição para a música popular brasileira atual. Celebração sim, mas com qualidade de letra, música, arranjo e interpretação.
Sarará Miolo: Brincadeira de Gil com os fenótipos negros e brancos, bem bolada e divertida. Mostra um compositor à vontade para produzir beleza mesmo com temas tabu.
Superhomem, a canção: Obra-prima de sensibilidade de Gil, um tapa de luva de pelica no machismo da sociedade. Canção primorosa.
Tradição: Menos badalada, essa é uma excelente canção sobre o dia-a-dia e as relações entre as pessoas.
Marina: Para mim, uma versão que infantiliza e tira o peso da letra de Caymmi. Fica mais festeira do que doce.
Toda menina baiana: Excelente canção de celebração, que não perde o viés crítico da história brasileira mesmo dentro do contexto de homenagem. Ritmo vibrante e contagiante.
Logunede: canção mais experimental, com referências às religões afro, muito elaborada, e talvez por isso menos notada num disco tão up quanto esse.
Não chore mais: Uma das mais perfeitas versões de canção estrangeira já escritas. Gil traz a melancolia da letra de Marley para o contexto dos tristes anos pós-perseguição no Brasil. Interpretação belíssima, só podia mesmo marcar época.
Tinha esquecido desta: Rebento: Música que mostra todo o talento do poeta Gil. Quem é que prende e arrebenta? Como lidar com o grito na garganta? Como dizer o que não pode ser dito? Brincando com concepções místicas, com a metalinguagem e com a própria condição de interdição da possibilidade da fala, o cancionista constrói outra peça inigualável.
Vale a pena revisitar com calma e lendo cada uma das letras. Um álbum que ajuda a explicar a magia do artista Gil.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Division Bell


Em 1994, o Pink Floyd lançou um disco que estreou completamente desacreditado por parte dos fãs da banda. Sem Roger Waters e sem a pegada progressiva da década de 1970, a maioria dos floydmaníacos acreditava que The Division Bell fosse apenas uma tentativa de Gilmour de lucrar sobre a marca da qual detinha direitos.
Eu fui surpreendido com esse lançamento. Não esperava que o Pink Floyd produzisse mais nada. O que eles tinham feito já estava bom. Na verdade, o impacto de um disco depende em grande parte da expectativa que você deposita nele. Como eu nem sabia que ele pudesse existir...
Meu primeiro contato com o Division Bell foi por meio da música "Take it back", que tocou durante uns tempos nas FMs. Gostei muito da cama melódica e da voz (a voz do Gilmour é muito boa). Isso sem saber que se tratava de Pink Floyd.
Quando descobri que era um lançamento da minha banda preferida, tratei logo de dar um jeito de ouvir todas as músicas. Ouvi uma primeira vez, e senti falta da pegada, da experimentação. Deixei um pouco de lado.
Um ou dois anos mais tarde, ganhei o CD num amigo secreto. Ele ficou entre meus poucos pertences pessoais por um ano (eu era professor eventual, e passava mais tempo desempregado que empregado. As coisas não eram fáceis...). Comecei a ouvi-lo devagar, estendido na cama, sozinho, pensando na vida. Ouvia algumas faixas. Depois, fui ficando com preguiça de pular faixas, e ouvia ele inteiro. Fui acostumando com a sequência. Fui entendendo o clima.
Fui assimilando a sonoridade calma, doce, leve, e bela.
Demorou algum tempo, mas Division Bell acabou se tornando um dos meus CDs preferidos. Quando o ouço, não o comparo mais a trabalhos do Pink Floyd. Realmente, ele fica em dívida em relação às outras coisas do grupo. É como se fosse o trabalho de uma outra banda, com algumas semelhanças com o antigo Pink Floyd. É assim que sinto.
E sentindo dessa forma, sou obrigado a admitir que é um dos trabalhos mais bonitos que conheço. Não digo vibrantes, não digo geniais, não digo intensos. Digo bonitos. Melodias bonitas, solos bonitos de guitarra, voz bonita do Gilmour. Tudo soa bem, é agradável, é convidativo. Música para fechar os olhos e se deixar levar. E esquecer que se está ouvvindo Pink Floyd. Isso não importa.