quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Obscured by clouds, do Pink Floyd




Vivemos, atualmente, um momento em que a difusão da música popular encontra facilidades muito mais evidentes do que encontrava antes. Se hoje um garoto de 14 anos, provocado por alguma leitura ou referência, quisesse conhecer uma banda legendária como o Pink Floyd, não precisaria pegar discos emprestados com o primo mais velho. Em poucos segundos, no YouTube, no Spotify, no Deezer, ou em qualquer programa de troca de arquivos, já estaria apto para ouvir, no conforto de seu quarto, qualquer das músicas dos álbuns de carreira da banda.
Isso é muito bom, mas cria uma circunstância inusitada: pode ser que ele não comece por aquilo que nos levou ao Pink Floyd. Explico: via de regra, nós, floydmaníacos, começamos a gostar da banda   por causa de uma das popularíssimas obras-primas que ela produziu, notadamente as que parecem com maior penetração comercial. Nosso primeiro contato pode ser Dark Side of the Moon, The Wall, Wish you Were Here, Animals. Talvez, para os mais novos, até o Pulse ou as coletâneas de "maiores sucessos". Mas será muito difícil que mecanismos de busca apontem, num primeiro momento, para outros materiais. Mesmo em uma consulta ao especialista, digamos assim, a chance seria muito pequena. Não conheço nenhum fã fervoroso que recomendasse uma iniciação via Division Bell ou The Final Cut. Eu mesmo não faria isso. Acredito, assim, que seja mais fácil encontrar pela rede afora trechos, canções e downloads dos discos mais famosos, ou sugestões que apontem esse caminho. Mas outro caminho não é impossível, num contexto de acesso imediato e não orientado.
Pois bem. O trabalho menos propalado do Pink Floyd é o brilhante Obscured by Clouds. Alguns nem se lembram da existência desse álbum se têm de listar de cabeça todos os álbuns de carreira da banda. Não se trata de injustiça, em minha opinião, porque estamos falando de obras anteriores como The Piper at the Gates of Dawn, Meedle, Atom Heart Mother, e de obras posteriores como The Dark Side of the Moon, Animals, The Wall. É difícil competir com esses aí. Quando temos de fazer uma seleção, e quando estamos tratando de uma totalidade tão consistente como a do Pink Floyd, o que sobra ou fica pra trás normalmente ainda é muito, muito bom. Mesmo que obscurecido por outros álbuns.
Em Obscured by Clouds, conseguimos sentir a forte presença da guitarra de Gilmour, de seu modo particular de criar, incrementar e respeitar climas sonoros. Mas ainda há bastante do espírito psicodélico, da opção pelo rock que flerta com experiências de arranjo e composição inusitadas e perturbadoras. A primeira tendência tende a ganhar corpo nos trabalhos posteriores, impulsionada pela engenharia sonora. É interessante notar que o álbum não traz nenhuma faixa de extensão ampliada ou de vocação épica, como "Echoes", de Meedle, ou a faixa-título de Atom Heart Mother. Por outro lado, o conjunto das canções parece um pouco mais unitário do que nos trabalhos anteriores, à exceção de The Piper. São diversas transições, mas a verdade é que elas só são importantes se já conhecemos a obra completa.
Mas e se eu não tiver ouvido nada de Pink Floyd antes, eu absorvo o Obscured by clouds?
Eis que talvez esteja aí o charme maior do disco. Pois se ele não é a porta de entrada mais comum para conhecer o Pink Floyd, poderia ser, sem nenhum problema, a porta de entrada para si próprio, ponto. Quem resolver empenhar alguns minutos de seu dia para ouvir as canções, encontrará algumas magníficas e muito agradáveis. Gosto, particularmente, de "Building Bridges" e da sinistra "Absolutely Curtains". O psicodelismo impede que algumas sejam canções pop de rádio, mas "Free Four", com um pouco de boa vontade, poderia figurar entre essas. Quanto a "Stay", é belíssima, antológica, e se parece, em alguma medida, com a produção tardia, sem Waters, embora eu a considere muito melhor.
Para os fãs de Pink Floyd, é para ouvir várias vezes, extraindo as belezas diferentes aos poucos. Para os que apenas querem um bom material para curtir, é para ouvir sem susto, porque tem coisa muito bacana para oferecer.
Para quem, eventualmente, tiver sua iniciação em Pink Floyd a partir dele, garanto que terá uma excelente impressão. Por certo não a melhor, mas seguramente uma bem representativa.