domingo, 25 de março de 2018

Além Paraíso, do 14 BIS





Belo e bem executado álbum de 1982 do 14 Bis. As canções ocupam o espectro do rock pop oitentista ao rock progressivo mais radiofônico. O jogo de vozes é o que há de melhor em todas as faixas. A ocupação quase constante da tessitura do falsete é uma marca registrada dos vocais da banda, e transmite uma sensação ao mesmo tempo etérea e suave. Com isso, a pegada rock, progressivo ou pop, fica mais sentimental e doce, tendo como resultado uma sonoridade única. Poder-se-ia dizer que é rock com pegada de MPB, não pela menor intensidade e densidade do arranjo, mas pela delicadeza do canto. Quando, por exemplo, teclados e guitarras mais rasgadas insinuam-se em solos e camas em "Uma velha canção rock'n'roll", a constância harmônica e limpidez das vozes garantem que a canção deslize pela mente do ouvinte sem sobressaltos ou agressões. 
As letras concordam com essa leveza: tratam de amor, paz, natureza, juventude, positividade, harmonia, pensamento pra frente. De fato, o trabalho, tomado como um todo, transpira vontade de viver e alegria de poder desfrutá-la. Nada mais distante da força reflexiva, politizada, ácida e irreverente do rock de meados da década de 1980, que se tornou a dicção por excelência de uma juventude de classe média descontente e mais bem informada que a maioria do país. Sim, claro, o 14-Bis tinha outras preocupações, seguia outras tendências e investia na beleza e na musicalidade, alcançando seus méritos a partir desses princípios. Não é possível ouvir Além Paraíso como um exemplar representativo de seu tempo histórico. Talvez por essa razão ele possa soar melhor hoje, quando essa cobrança não recairá sobre suas ótimas canções. Por outro lado, o lado rebelde do rock não será encontrado por um ouvinte desavisado, e é por essa razão que eu não colocaria a etiqueta "rock nacional" nesse álbum em uma loja de discos. Estaria mais para o que as pessoas chamam de MPB, e se houvesse uma categoria chamada "música para inspiração", talvez estivesse nela.
Pra terminar: "Linda juventude" é uma das canções mais brilhantes do pop brasileiro.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Obscured by clouds, do Pink Floyd




Vivemos, atualmente, um momento em que a difusão da música popular encontra facilidades muito mais evidentes do que encontrava antes. Se hoje um garoto de 14 anos, provocado por alguma leitura ou referência, quisesse conhecer uma banda legendária como o Pink Floyd, não precisaria pegar discos emprestados com o primo mais velho. Em poucos segundos, no YouTube, no Spotify, no Deezer, ou em qualquer programa de troca de arquivos, já estaria apto para ouvir, no conforto de seu quarto, qualquer das músicas dos álbuns de carreira da banda.
Isso é muito bom, mas cria uma circunstância inusitada: pode ser que ele não comece por aquilo que nos levou ao Pink Floyd. Explico: via de regra, nós, floydmaníacos, começamos a gostar da banda   por causa de uma das popularíssimas obras-primas que ela produziu, notadamente as que parecem com maior penetração comercial. Nosso primeiro contato pode ser Dark Side of the Moon, The Wall, Wish you Were Here, Animals. Talvez, para os mais novos, até o Pulse ou as coletâneas de "maiores sucessos". Mas será muito difícil que mecanismos de busca apontem, num primeiro momento, para outros materiais. Mesmo em uma consulta ao especialista, digamos assim, a chance seria muito pequena. Não conheço nenhum fã fervoroso que recomendasse uma iniciação via Division Bell ou The Final Cut. Eu mesmo não faria isso. Acredito, assim, que seja mais fácil encontrar pela rede afora trechos, canções e downloads dos discos mais famosos, ou sugestões que apontem esse caminho. Mas outro caminho não é impossível, num contexto de acesso imediato e não orientado.
Pois bem. O trabalho menos propalado do Pink Floyd é o brilhante Obscured by Clouds. Alguns nem se lembram da existência desse álbum se têm de listar de cabeça todos os álbuns de carreira da banda. Não se trata de injustiça, em minha opinião, porque estamos falando de obras anteriores como The Piper at the Gates of Dawn, Meedle, Atom Heart Mother, e de obras posteriores como The Dark Side of the Moon, Animals, The Wall. É difícil competir com esses aí. Quando temos de fazer uma seleção, e quando estamos tratando de uma totalidade tão consistente como a do Pink Floyd, o que sobra ou fica pra trás normalmente ainda é muito, muito bom. Mesmo que obscurecido por outros álbuns.
Em Obscured by Clouds, conseguimos sentir a forte presença da guitarra de Gilmour, de seu modo particular de criar, incrementar e respeitar climas sonoros. Mas ainda há bastante do espírito psicodélico, da opção pelo rock que flerta com experiências de arranjo e composição inusitadas e perturbadoras. A primeira tendência tende a ganhar corpo nos trabalhos posteriores, impulsionada pela engenharia sonora. É interessante notar que o álbum não traz nenhuma faixa de extensão ampliada ou de vocação épica, como "Echoes", de Meedle, ou a faixa-título de Atom Heart Mother. Por outro lado, o conjunto das canções parece um pouco mais unitário do que nos trabalhos anteriores, à exceção de The Piper. São diversas transições, mas a verdade é que elas só são importantes se já conhecemos a obra completa.
Mas e se eu não tiver ouvido nada de Pink Floyd antes, eu absorvo o Obscured by clouds?
Eis que talvez esteja aí o charme maior do disco. Pois se ele não é a porta de entrada mais comum para conhecer o Pink Floyd, poderia ser, sem nenhum problema, a porta de entrada para si próprio, ponto. Quem resolver empenhar alguns minutos de seu dia para ouvir as canções, encontrará algumas magníficas e muito agradáveis. Gosto, particularmente, de "Building Bridges" e da sinistra "Absolutely Curtains". O psicodelismo impede que algumas sejam canções pop de rádio, mas "Free Four", com um pouco de boa vontade, poderia figurar entre essas. Quanto a "Stay", é belíssima, antológica, e se parece, em alguma medida, com a produção tardia, sem Waters, embora eu a considere muito melhor.
Para os fãs de Pink Floyd, é para ouvir várias vezes, extraindo as belezas diferentes aos poucos. Para os que apenas querem um bom material para curtir, é para ouvir sem susto, porque tem coisa muito bacana para oferecer.
Para quem, eventualmente, tiver sua iniciação em Pink Floyd a partir dele, garanto que terá uma excelente impressão. Por certo não a melhor, mas seguramente uma bem representativa.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Força verde, de Zé Ramalho




Sem ter pesquisado, descobri recentemente que o vocalista do Coldplay, uma das bandas de que mais gosto, é formado em Letras Clássicas. Isso foi citado numa matéria em que se fala de uma das canções do grupo, com alguma referência à mitologia. Francamente, essa informação em nada altera o que penso sobre o conjunto, porque, a não ser em uma ou outra referência isolada e sem maiores decorrências, a música que eles fazem não convoca esse conhecimento, nem dialoga com ele.
Pois bem. Em "Força Verde", parece que Zé Ramalho fez de maneira diferente. Em cada faixa, cada letra, cada escolha de imagem e cada colocação de voz, o compositor e cantor parece querer integrar suas descobertas mitológicas, históricas e filosóficas sobre o mundo, compondo um quadro em que essas referências não são apenas convocadas, mas amalgamadas alquimicamente, de alguma maneira bastante peculiar e original. Não é uma fusão aleatória buscando um efeito sem profundidade. Há uma inquietação com o mundo, com a iminência da destruição, com a efemeridade das preocupações do homem diante de forças mais primitivas e poderosas. E há, também, elementos inimitáveis que dão liga a essa originalidade, como a voz de barítono de Zé, sua interpretação quase falada, os tons sinistros que produz quando quer, seu processo de composição altamente poético, seu corte inusitado de versos, suas rimas inesperadas, as referências surpreendentes que desfila. 
A palavra "força"é justa para o título do álbum. Com muita musicalidade (os arranjos são absolutamente primorosos) e muita intenção literária, Zé Ramalho entrega uma obra personalíssima e ao mesmo tempo muito comprometida com seu tempo (tangenciando questões ecológicas, históricas, míticas, bíblicas e muito mais). Uma audição atenta da estrutura musical do álbum pode revelar similaridades com a produção do rock progressivo dos anos 1970, principalmente na postura de pesquisa musical e na aposta em elaboração harmônica. A canção mais conhecida é "Eternas Ondas", que explodiu posteriormente com Fagner, e que soa de maneira menos dramática nesta versão. Mas a faixa-título, a faixa de encerramento "Cristais do tempo" e a extasiante "Visões de Zé Limeira sobre o final do século XX" recompensam sobejamente a atenção e a descoberta, se for o caso. 
Acredito que "Força Verde" seja um dos filhos mais bonitos de uma época em que artistas como Zé Ramalho sentiam-se motivados a inovar e produzir música consistente e desafiadora para fazer sucesso. Isso levava a exageros poéticos, estranhezas e canções pretensiosas, mas havia uma beleza e até uma certa inocência nessa produção sem ansiedade comercial que dificilmente poderia ser recuperada nos contextos ultraprofissionalizados de marketing e indústria musical da atualidade. Não se trata de saudosismo, e sim de percepção do contexto histórico. Sem esquecer, é claro, que a História pode ser reescrita a todo momento, mesmo quando não percebemos e mesmo quando os grandes magnatas do showbizz acreditam que encaixotaram e dominaram toda a criatividade cancional do planeta em fórmulas audio-video-prontas. Isso pode acabar dando errado: os mais jovens podem encontrar "Força Verde" disponível, dando sopa no Spotify, e só Deus sabe o que pode acontecer a partir daí.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Songs of Experience, do U2




Algum tempo depois de ter visto o irretocável show de comemoração dos 30 anos do álbum The Joshua Tree, consegui um espaço nas rotinas para ouvir o bom álbum de 2017, Songs of Experience. Apesar do título, há pouco de climático, experimental, conceitual ou programadamente oscilante no trabalho. O álbum está mais para mais uma reunião de canções do que para um resultado de qualquer princípio de criação costurado por elas. Há boas canções pop, e menos rock. Ou talvez rock mais pop, menos gritado, menos explosivo nos refrões e nas entradas de guitarra. A voz de Bono assume um timbre mais agudo e coloca-se de forma menos rasgada. Os arranjos são bem equilibrados, e as faixas alternam intenções musicais com competência, garantindo o colorido da ordem de audição. Mesmo fazendo um álbum com quase todas as características sonoras que consagraram a banda, o U2 parece ter optado por certa economia nas dinâmicas e nas execuções, o que pode tornar a música mais agradável e propícia para a execução em rádio e TV, mas ao mesmo tempo menos marcante para o fã-clube construído ao longo dos anos.
As três primeiras faixas formam uma excelente comissão de frente, e lembro de ter ouvido a terceira no show, com recepção respeitosa do público. "Lights of Home" teria lugar nos melhores álbuns da banda, em que pese lembrar um pouco o Coldplay. "The Little Things That Give You Away" é muito boa e pode se tornar hit. "Landlady" lembra canções do Unforgettable Fire.  "13 (There is a light)" tem uma beleza doce e triste. "Book of your heart"utiliza o recurso da dobra de voz de Bono em oitava, que considero umas das mais belas marcas da banda.
Não se pode exigir do artista a produção de um clássico por ano. O U2 já fez pelo menos uns cinco álbuns clássicos do rock e do pop. Este Songs of Experience não me parece ocupar esse patamar com eles. Talvez a experiência evocada no título seja justamente a noção de que deve-se fazer o que se pode, da melhor maneira possível, e de que cada momento da vida de uma banda exige uma resposta adequada sonoramente, que nem sempre será a mais estimulante ou a mais intensa. De qualquer forma, acaba sendo injusto comparar o U2 consigo mesmo, dada a estatura que a banda adquiriu; as canções de Songs of Experience podem ser ouvidas, hoje, por qualquer iniciante em U2 como boas canções. Comovem, empolgam e agradam na medida do nível de exigência atual do pop, até um pouco acima.
Gostei bastante.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Sigur Rós, Popload Gig, Espaço das Americas, 29 de novembro de 2017



Poder ver o Sigur Rós ao vivo depois de 20 anos de espera é uma das sensações mais gratificantes para qualquer fã brasileiro. Acessar as músicas da banda via Spotify ou troca de arquivos é fácil, ver os clipes e as produções visuais na internet também. Porém, sempre tive muita dificuldade enquanto colecionador para adquirir os CDs e LPs de carreira da banda, nas versões especiais que circularam na página deles e nas lojas virtuais por aí. Como fã, isso me deixou um pouco frustrado, dado o carinho que tenho por todo o material que produzem. Até hoje aguardo alguma estabilização da moeda que me permita adquirir a música dos islandeses nos suportes devidos, pensados artisticamente como tudo o que fazem.
Feito o desabafo, revelo que, no dia 29 de novembro, após ouvir a quarta canção, eu já estava em prantos. A intensidade do show arrebata qualquer um. Música, luzes e concentração constituem um clima único, que não vi em nenhuma apresentação de banda que prestigiei (nem no U2, nem no Coldplay, nem em mais ninguém. Quem pode acompanhar o show, presenciou um espetáculo único, musicalmente formidável, que não pode ser repetido nem imitado por nenhuma outra banda que conheço simplesmente porque é singular em sua proposta.
A força da música do Sigur Rós está na liberdade com os timbres e as dinâmicas. Sim, quem conhece a banda sabe o quanto são sensíveis os arranjos e os vocais. Mas ao vivo tudo isso fica mais forte, tanto pelas possibilidades de volume, quanto pelas escolhas de foco e dispersão da iluminação sobre o palco.
A versão curta de "Festival" parece-me pensada para ser mais agressiva na parte final. "Saeglóplur" e "Glósóli", por usa vez, soam tão pops quanto nos álbuns. Pessoalmente, considero perfeitamente adequado o encerramento do show com "Poppalagid", que é a minha preferida de todos os trabalhos. Quando eles deixam o palco e o jogo de luzes acompanha a extensão das notas finais da música ainda por alguns minutos, vivenciamos um autêntico final apoteótico. 
Musicalmente, não conheço nada melhor no mundo pop. 
É minha banda preferida, e eu pude vê-la ao vivo. Ponto.

domingo, 19 de novembro de 2017

Picanha de Chernobill, na avenida Paulista, 12 de novembro de 2017

Algumas semanas antes, estava andando pela Paulista e encontrei um amigo, que considero da família, promovendo o show dessa banda. Eles estavam no intervalo, e infelizmente eu não podia ficar. Tinha alguns outros afazeres, mas fiquei curioso de conhecer o som daqueles meninos com cara de roqueiros maus que estavam preparando seus instrumentos.
No domingo, dia 12 de novembro, fui especificamente para vê-los, aproveitando o aviso de meu amigo no Facebook. Cheguei antes de começarem, e já havia público considerável à espera. 
Quando o som começou, identifiquei um proposição autêntica de rock, com algumas pitadas psicodélicas. Lembrei do Violeta de Outono, mas não creio que essa seja exatamente uma referência deles. No decorrer do show, vi rock e blues em diferentes ritmos, mas sempre prestigiando a guitarra e a força da interpretação. Lembrei das melhores coisas do Free, mas tinha bastante de anos 60 também. 
O fato é que o Picanha de Chernobill cativa com sua sonoridade vintage, porque soa atualizado pela excelência dos músicos que o compõem. Rock de verdade, com pegada, e bem tocado. A prova disso é a permanência do público até o fim do show e até depois do fim do show - sim, porque as ruas da Paulista já estavam abertas novamente para circulação de carros e o público ficou pelo menos mais 20 minutos pedindo mais e mais.
Depois da apresentação, os meninos tiveram a delicadeza e boa vontade de autografar os dois CDs que comprei. Isso também conta para eu ter gostado.
Eles vivem desse giro pelas praças e ruas de São Paulo. São muito queridos, pelo que vi. Passam o chapéu pedindo contribuições, e vendem seus CDs nas banquinhas ao lado do espaço de apresentação, ajudados por amigos e colaboradores.
Parece que eles estão agora na Europa. Merecem sucesso por lá também. Boa sorte!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

The Joshua Tree Tour, estádio do Morumbi, 22 de outubro de 2017 - U2



Coroando os 30 anos do álbum, o U2 apresentou nesse fantástico show todas as músicas do "Joshua Tree" e mais alguns outros clássicos da banda. Fiquei na pista, mais ou menos no meio, longe do palco. O que mais gostei no show:
1) Abertura de Noel Gallagher, mostrando a energia, qualidade e vitalidade de suas gemas. Definitivamente, um grande compositor de rock. Boa banda, pegada de espetáculo, menos solos e mais pulsação, e espaço para que as canções brilhassem por si. Mais que um simples aperitivo.
2) O set do show colocou quatro clássicos na entrada antes do "Joshua Tree", e uma coleção de hits pós-Acthung Baby depois do "Joshua Tree". De certa forma, essa escolha valorizou as fases da banda, com um primeiro momento mais "rock" e um segundo momento mais "pop de rádio". O "Joshua Tree", com certeza, está mais próximo do primeiro momento.
3) O projeto gráfico do show valorizou sobremaneira a beleza das canções do álbum homenageado. O uso da projeção funcionou como narrativa paralela ao discurso musical. Foram selecionadas imagens belíssimas e de muito impacto. Poucas vezes vi uma estrutura de show tão bem pensada.
4) Embora meu inglês e meu espanhol sejam fraquíssimos, foi possível me divertir com os trechos literários e poéticos que rodavam no telão antes dos shows do Noel e do U2. Se eu tivesse mais condição de leitura nessas línguas, por certo teria aproveitado mais.
5) O U2 sempre foi bom de palco, e vê-los em ação só poderia ser gratificante mesmo. Quando estão lá em cima, os caras têm personalidade, sabem o que querem entregar e conseguem ótima interação com a plateia. 
Um dos melhores shows que já vi. Veria novamente, sem dó.