Sem ter pesquisado, descobri recentemente que o vocalista do Coldplay, uma das bandas de que mais gosto, é formado em Letras Clássicas. Isso foi citado numa matéria em que se fala de uma das canções do grupo, com alguma referência à mitologia. Francamente, essa informação em nada altera o que penso sobre o conjunto, porque, a não ser em uma ou outra referência isolada e sem maiores decorrências, a música que eles fazem não convoca esse conhecimento, nem dialoga com ele.
Pois bem. Em "Força Verde", parece que Zé Ramalho fez de maneira diferente. Em cada faixa, cada letra, cada escolha de imagem e cada colocação de voz, o compositor e cantor parece querer integrar suas descobertas mitológicas, históricas e filosóficas sobre o mundo, compondo um quadro em que essas referências não são apenas convocadas, mas amalgamadas alquimicamente, de alguma maneira bastante peculiar e original. Não é uma fusão aleatória buscando um efeito sem profundidade. Há uma inquietação com o mundo, com a iminência da destruição, com a efemeridade das preocupações do homem diante de forças mais primitivas e poderosas. E há, também, elementos inimitáveis que dão liga a essa originalidade, como a voz de barítono de Zé, sua interpretação quase falada, os tons sinistros que produz quando quer, seu processo de composição altamente poético, seu corte inusitado de versos, suas rimas inesperadas, as referências surpreendentes que desfila.
A palavra "força"é justa para o título do álbum. Com muita musicalidade (os arranjos são absolutamente primorosos) e muita intenção literária, Zé Ramalho entrega uma obra personalíssima e ao mesmo tempo muito comprometida com seu tempo (tangenciando questões ecológicas, históricas, míticas, bíblicas e muito mais). Uma audição atenta da estrutura musical do álbum pode revelar similaridades com a produção do rock progressivo dos anos 1970, principalmente na postura de pesquisa musical e na aposta em elaboração harmônica. A canção mais conhecida é "Eternas Ondas", que explodiu posteriormente com Fagner, e que soa de maneira menos dramática nesta versão. Mas a faixa-título, a faixa de encerramento "Cristais do tempo" e a extasiante "Visões de Zé Limeira sobre o final do século XX" recompensam sobejamente a atenção e a descoberta, se for o caso.
Acredito que "Força Verde" seja um dos filhos mais bonitos de uma época em que artistas como Zé Ramalho sentiam-se motivados a inovar e produzir música consistente e desafiadora para fazer sucesso. Isso levava a exageros poéticos, estranhezas e canções pretensiosas, mas havia uma beleza e até uma certa inocência nessa produção sem ansiedade comercial que dificilmente poderia ser recuperada nos contextos ultraprofissionalizados de marketing e indústria musical da atualidade. Não se trata de saudosismo, e sim de percepção do contexto histórico. Sem esquecer, é claro, que a História pode ser reescrita a todo momento, mesmo quando não percebemos e mesmo quando os grandes magnatas do showbizz acreditam que encaixotaram e dominaram toda a criatividade cancional do planeta em fórmulas audio-video-prontas. Isso pode acabar dando errado: os mais jovens podem encontrar "Força Verde" disponível, dando sopa no Spotify, e só Deus sabe o que pode acontecer a partir daí.

Nenhum comentário:
Postar um comentário