Trabalho magnífico de Caetano, este álbum de 1979 traz algumas das canções mais simpáticas que ele compôs. Como um todo, impressiona pela coesão. A maioria das canções é de celebração, mas a celebração de Caetano não é mera alusão às qualidades do que é celebrado; pelo contrário, ele aposta sempre em fazer jus a essas qualidades com uma poesia refinada e um senso de observação que extrapola o imediato e o óbvio. Assim, o "Menino do rio" é mais que alguém interessante: torna-se uma doce e terna homenagem à beleza dos moços das praias sintetizada em uma figura facilmente reconstruída na imaginação, mas dificilmente referida com a maestria do compositor. "Trilhos Urbanos" é a que mais está adequada ao título do álbum, porque lembra de fato o cinema, como se aludisse a cenas de um filme passando na memória. A melodia é tão linda e a letra casa tão bem com o arranjo que a considero umas das melhores de toda a obra de Caetano (e isso é uma valoração e tanto!). "Oração ao tempo", sacada sensacional, personifica o Tempo num diálogo que mistura pedidos e confirmações. "Lua de São Jorge" tem aquela pulsação dançante, comum ao conjunto das músicas do disco, mas nasceu clássica para carnavais e rádios, por sua beleza rítmica e por sua letra cativante. Das menos conhecidas, "Badauê" funciona como uma vinheta experimental, "Os meninos dançam" lembra um pouco Jorge Benjor, pela base harmônica simples com levada pulsante conduzindo uma letra longa e de encaixe complicado na melodia, "Aracaju" tem arranjo de sopros instigante. "Vampiro", a princípio, soaria como a mais deslocada entre as canções do álbum, por ser a menos pulsante, mas é sucedida por "Elegia" e, no fundo, ambas são experiências poético-musicais complementares. "Beleza pura" é autêntica música de rádio, mas melhor que a imensa maioria das músicas de rádio. "Cajuína" consagrou-se em outras versões, mas seu brilho verbal já é nítido nesta gravação do autor. E quanto a "Louco por você", parece romântica, jazzística e poética demais para uma primeira fruição. É a menos imediatamente simpática, mas todo grande trabalho musical tem de deixar uma pergunta no ar, uma razão para retornarmos a ele e não apenas gravarmos as faixas mais conhecidas em coletâneas, esquecendo da proposta conceitual em que foram geradas. "Louco por você" deixa essa abertura, com uma letra não convencional sobre o convencionalíssimo tema do amor não correspondido, amparada por um arranjo primoroso, piano, guitarra na medida, solos, variações na densidade etc.
"Cinema transcendental" tende agradar até aqueles que não curtem muito Caetano. É feito sob medida para deixar tocando várias vezes, até que se perceba que as simpáticas canções são mais profundas do que nos pareceram na primeira audição.

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