quinta-feira, 6 de abril de 2017

Convoque seu Buda, de Criolo




Eis um trabalho verdadeiramente rico.
Passei por ele várias vezes, mas sempre parava nas quatro primeiras faixas. O impacto delas fazia com que eu me retraísse em relação ao resto. Depois que me habituei à força dos versos e dos arranjos, consegui avançar até o final do álbum. Conhecendo a necessidade de equilibrar a verve crítica com a abertura poética e de deixar o ouvinte respirar entre as sacadas, Criolo proporcionou faixas menos pesadas no decorrer de seu trabalho, que não me parecem as principais, e temperam a expectativa para verdadeiras porradas líricas, como "Casa de papelão", "Esquiva da esgrima" e "Plano de voo", a primeira sendo uma daquelas pérolas da canção que o tempo há de tornar ainda mais belas. 
Tem de tudo no álbum, em dose sábia e bem realizado. Reggae, hip-hop, samba, pegada rock, pegada funk: o trabalho de arranjo sobre as composições mostra que a mistura de referências do poeta Criolo tem correspondência na mistura de fontes sonoras e musicais que sustentam suas batidas. Não se trata apenas de ter uma canção para cada, digamos, estilo. Trata-se de fazer com que as canções flutuem em partes distintas, com ambiências variadas, timbres inusitados e densidades instigantes. Musicalmente, o espectro criativo parece ilimitado, a música não se repete em momento algum e o todo da obra remete aos melhores tempos da MPB experimental pós-tropicalista. 
A costura de toda essa variedade é o ethos rapper/descolado/cronista de Criolo, com sua voz marcante, sempre séria e afirmativa. A postura do intérprete é a de quem diz e valoriza o conteúdo do que diz, e por isso há forte investimento de fala poética, e menor investimento no brilho vocal e nas curvaturas melódicas, o que é compensado pela participação de algumas boas cantoras em faixas específicas. No geral, o conjunto das canções soa duro e sisudo, mas fiel à intensidade artística almejada e justo com a amplitude dos referenciais emprestados. Dá para ouvir e dançar, curtir, assoviar, acompanhar, mas no fundo é música para incomodar, e faz isso muito bem.
Tanto que eu não conseguia ouvir inteiro. E, quando consegui, continuei com a mesma sensação de impacto inicial.
Um dos grandes trabalhos recentes produzidos por aqui. Necessário.

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