quarta-feira, 1 de março de 2017

The wave, de Tom Chaplin




Eis que um dos cantores que mais admiro e gosto de ouvir decide lançar um disco solo, sem a participação de seus antigos companheiros de banda. Isso talvez não tivesse maior importância se não fosse o fato de que seu tecladista era o compositor por excelência (e põe excelência nisso) da quase totalidade das canções que ele cantava até então. O lançamento, assim, ganha a aura de curiosidade natural de se saber como o espetacular intérprete Tom Chaplin se sai sem o não menos espetacular compositor Tim Rice-Oxley, ambos peças-chave da banda pop Keane.
Para matar essa curiosidade e descobrir a verdade artística inerente a esse trabalho, tive de ouvir "The Wave" algumas vezes, com algumas constatações imediatas, e outras mais lentas. Fica claro, de primeira, que Tom Chaplin torna lindo tudo o que canta. Tem uma voz excepcional e um poder de interpretação de canções pop emotivas raro de se encontrar. Mas também parece que seu estilo de compor é diferente do de Tim e do Keane. Tim parece conseguir frases melódicas mais impactantes e pensar arranjos que preenchem melhor o desenrolar do canto. Ele tem aquela sabedoria pop de achar boas unidades entoativas, tornando a canção fácil de cara, e ao mesmo tempo cheia de encantos a longo prazo. 
Com mais algumas audições, percebe-se que Tom é, também, um excelente compositor, com excelentes canções. O álbum é muito equilibrado, e não se consegue apontar uma faixa ruim. Mas parece que Chaplin tem menos preocupação com as boas sacadas melódicas, e mais com a narrativa da canção como um todo. Tanto é que, à exceção de "Quicksand", não há em "The wave" nenhuma linha de voz que se fixe na mente nas primeiras audições. Há, sim, linhas melódicas muito bonitas, canções muito bem feitas, mas com menor apelo pop. Parece que as frases recortadas por Tom são mais longas e sinuosas, com menor clareza dos pontos de chegada e maior número de sílabas poéticas, o que atenua um pouco uma das grandezas de seu canto, que é a potência (aliada à clareza de intenção e pronúncia) na emissão de notas-chave. 
Ouvindo um pouco mais, refletimos que essas diferenças talvez não sejam de estilos, mas de contextos. "The wave" é, claramente, um álbum confessional, em que todas as letras tratam do tema da recuperação emocional, passagem de um estado de quase destruição para outro de restabelecimento paulatino. Com isso, é importante o "dizer": as letras são mais longas e mais sofridas, quase como conselhos de si para si. Há uma tendência de se favorecer, nas composições e arranjos, o conteúdo do que é dito, o encadeamento das palavras para o que se quer expressar, e deixar em segundo plano a expansão da narrativa melódica, em suas direções claras de efusão, explosão ou extravasão emocional, características das composições de Tim no Keane. Mas só conseguiremos confirmar essa hipótese num eventual segundo disco solo de Chaplin, que torço para que só aconteça se acompanhado de um novo trabalho do Keane.
Vale a audição atenta; mais de uma, se possível.
Destaco "Quicksand", "The wave" e "Hold on to your love".

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