segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Delírio, de Roberta Sá




A gravação é de 2015, bem recente, fato que me surpreendeu, por causa do estilo mais passadista (no melhor dos sentidos) dos arranjos.
Álbum excelente, de muito gosto. Presta tributo à história do samba, recuperando o espírito do samba romântico pré-pagode. Nesse sentido, acredito que preenche uma lacuna de refinamento no quadro geral do gênero, conseguindo ser romântico sem ser piegas e mantendo uma condução contida da linha de voz mesmo nas canções mais propensas a crescer nos refrãos e em partes mais agudas.
Muito esperta a escolha de compositores, bastante variada e representativa de várias épocas e possibilidades. Ali estão Arnaldo Antunes, dentre os bam-bam-bans atuais, Martinho da Vila, Capinam, Baden Powell, Paulo César Pinheiro e mestre Ataulfo, do samba toada. Os arranjos para as composições, dentro da linha do samba bem tocado e sem tanto peso na percussão, faz com que elas soem, às vezes, quase como chorinhos ("Um só lugar" é um chorinho mesmo, então não vale).
Roberta tem um timbre leve, bonito e único. Em canções mais temáticas e alegres, sua voz soa como a de Marisa Monte. Em canções mais sentidas e passionais, remete às melhores cantoras de fado.
Canta samba a seu modo, sem o vozeirão da Alcione, mas com muito sentimento. Com um repertório mais delicado e intimista, ela valoriza seu potencial de interpretação. Gosto mais das canções melancólicas que de faixas como "Boca em boca".
Destaco as seguintes faixas: "Não posso esconder o que o amor me faz", letra fantástica; "Amanhã é sábado", com percepção brilhante do cotidiano e todo o jeito Martinho de ser; "Feito Carnaval", com poesia de grande sensibilidade; e "Covardia", pequena obra-prima do mestre Ataulfo.
Me ganhou fácil.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Fire and water, do Free







Sobre este clássico de poucas faixas do Free, devo dizer que aprecio a dosagem. São canções com temas clássicos do blues, a maioria sobre desilusões amorosas, mas também sobre encontros divertidos, como "All right now", e inimizades, como "Mr. Big". Elas rendem tremendamente nas mãos dos quatro integrantes desta grande banda. 
Paul Rodgers tem a maior qualidade de um vocalista: colocação de voz adequada à intenção da interpretação. Ele faz miséria cantando, mas o ouvinte não sente isso como exibicionismo injustificado. Ele canta de dentro da música, de dentro da intenção da letra, para fora, expandindo a emoção que ali está, sem corrompê-la pelo apelo injustificado à potência ou amplitude vocal. 
Paul Kossof tem a maior qualidade de um guitarrista: a compreensão de trabalhar para um todo sonoro maior que as partes. Os riffs sensacionais, a levada precisa e os solos muito bem colocados também fazem com que esqueçamos do item "guitarra" no meio de tudo que estamos ouvindo para lembrar apenas da força da canção executada. Não é que não notamos a qualidade incrível do que ele faz. A questão é que essa qualidade só sobressai e ganha sentido no conjunto.
O resultado desse casamento, considerando ainda os talentos de Andy Fraser (vide solo de baixo fantástico em "Mr. Big") e Simon Kirke, é um álbum que aponta sempre para a direção do blues-rock, e ao mesmo tempo consegue dosar, mantendo esse foco, uma série de possibilidades de interpretação vocal e execução dos instrumentos que encorpam as músicas e agregam-lhes personalidade.
"All right now" não merecia ser a faixa mais executada, embora seja muito bacana. A construção paulatina do clima em "Don't say you love me" avulta como momento mais marcante do trabalho, em minha opinião. "Heavy load" também é sensacional, com destaque para a letra sentida e dramática. "Fire and water" e "Oh, I wept" lembram-me as melhores lamentações da pegada blues.
Enfim, grande álbum (pequeno, na verdade, mas grandioso).
Para curtir com atenção.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Dois, da Legião Urbana




Durante muito tempo me perguntei porque tinha tanta certeza de que Dois era a obra-prima da Legião Urbana.
Essa certeza, em si, traz o problema de pensar que grandes canções, provavelmente as melhores da banda, como "Faroeste Caboclo", "Angra dos Reis", "Vento no Litoral", "Perfeição", "Soldados", "Há tempos", "Pais e filhos", "Monte Castelo" e "Eu era um lobisomem juvenil" estariam de fora do disco que mais me toca entre todos os gravados por Renato e cia.
Entretanto, sempre que penso em um CD da Legião para ouvir em sequência, do começo ao fim, de acordo com  a ordem de audição proposta pelo próprio artista, penso no Dois. Retornei ao material para me certificar dessa tendência, e ela se confirmou.
Nesse retorno, algumas coisas ficaram mais claras.
1) Dois tem um equilíbrio interessante entre faixas mais enérgicas, como "Metrópole" e "Plantas embaixo do aquário", e faixas mais introspectivas, como "Andrea Doria" e "Acrilic on Canvas". Dentre todos os álbuns da Legião, parece-me o mais equilibrado nesse sentido.
2) O álbum compensa a força desconcertante da poesia de Renato Russo com sessões instrumentais mais longas ao final das canções, como que "aliviando" o ouvinte do impacto das letras fortíssimas e interpretadas de forma intensa. Isso acontece em muitas faixas. A pesada "Daniel na cova dos leões" prolonga-se quase um minuto e meio depois do canto, e tem uma coda de teclado sem o acompanhamento da bateria. "Quase sem querer" também estende a gostosa batida dos violões do final por 90 segundos antes de encerrar. "Eduardo e Mônica", canção prolixa, também possui uma coda com sequência de acordes diferentes do acompanhamento do canto, mais curta. Ao final de "Tempo perdido", há uma espécie de retorno do instrumental de forma mais amena, um bônus do arranjo para retomar e conduzir um pouco mais adiante o clima.  A poética e melancólica "Andrea Doria" também se aproveita do etéreo jogo de cordas para manter o sentimento de incompletude ativo mesmo depois do canto, também por um minuto e meio. O álbum inclui até uma faixa instrumental, "Central do Brasil", inserção bastante incomum nos trabalhos da banda.
3) Há coerência entre o grau de introspecção reflexiva das canções e a utilização da coda instrumental. As faixas mais fortes, agressivas e diretas fecham mais próximas do fim do canto ("Metrópole", "Plantas embaixo do aquário", "Música urbana", e em certo sentido, "Fábrica"). Uma dessas faixas, pelo alto teor poético, recebe um acréscimo instrumental compensatório ("Tempo perdido"). "Índios", também pesada, mas com alto teor poético e de introspecção, fica no meio termo, As outras, citadas no item anterior, têm seus finais alongados.
4) Há um equilíbrio entre os instrumentos que se destacam em cada faixa, variando entre o violão para algumas, a guitarra e o teclado para outras. Esse equilíbrio é coerente, também, com a intenção expressiva de cada canção.
Os itens que levantamos acima indicam um pensamento coeso de construção do álbum, que se reflete na percepção sonora do mesmo como um todo sinergético, em que cada parte pode ser mais bem digerida se precedida ou sucedida pela escolha estética que convém. Entre os entusiastas da Legião Urbana, essa qualidade de produção pode passar despercebida pela força individual de cada canção, sempre muito ligada ao brilhantismo de Renato Russo como letrista e intérprete. Por outro lado, muitos dos críticos do grupo apontam a pobreza de soluções de melodia e arranjo como elemento desabonador da produção dos rapazes de Brasília.
Diria que Dois é a obra mais bem acabada da Legião Urbana enquanto conjunto de canções porque, além da qualidade evidente de oferecer excelentes canções, como "Andrea Doria", "Tempo Perdido", "Índios" e outras que se sustentam em qualquer coletânea, ainda traz, no conjunto, soluções de sequência, intensidade e atenuação mais bem concatenadas, amenizando o que poderíamos chamar de "pontos fracos" da Legião, se é que eles importam para a legião de fãs que construíram.


domingo, 27 de novembro de 2016

Zélia Duncan, de Zélia Duncan




Primeiro CD que comprei com meu primeiro salário de estagiário. Marcante em vários sentidos, continua lindo mais de vinte anos depois do lançamento (1994). Por muito tempo, foi minha referência de MPB pós-80. Considero que seja o trabalho menos saturado e mais equilibrado de Zélia, com baladas de amor, canções dançantes, flertes com o jazz, o soul, o reggae e o brega pop. Recomendo sem contraindicações. 

Faixa por faixa:

Não vá ainda - Um dos fonogramas mais bonitos que conheço. Arranjo de bandolins, percussão leve na segunda metade da canção, letra sentida e sem rodeios. Intensa e crescente, canção que merecia mais sucesso do que teve, mesmo dentro do repertório de Zélia Duncan.

O meu lugar - Letra muito boa. Interpretação doce e emotiva.

Sentidos - Canção que parece jogar com a oposição contenção/explosão. A letra remete à intensidade, mas o arranjo segura a explosão até o final. O trabalho de bateria é o grande responsável pela força dessa faixa.

Nos lençóis desse reggae - Melhor das canções dançantes do álbum. Não tem uma letra tão sensível, mas o ritmo gostoso compensa com sobras.

Catedral - Arranjo etéreo e sensível para uma interpretação arrebatadora. Mega hit do álbum.

Improvável - Canção mais dançante, com vocal um pouco mais soul, e temática associada ao prazer erótico. Boa letra, levada bacana.

Lá vou eu - Adoro essa música. Letra fantástica da Rita Lee. Balada gostosa, com a cara da noite de São Paulo. Ideal para apresentações em bares.

Miopia - Outra letra sensacional, descrição de um momento mais sutil, próximo do banal, mas poeticamente recuperado. Solo fantástico de guitarra. Arranjo que valoriza a pouca intensidade do vocal doce. 

Tempestade - Canção francamente dançante, com parte falada e vocal. É a que menos chama minha atenção no álbum. E ainda assim é boa.

Um jeito assim - Canção mais jazzística e malandra, sensual, com bela levada de violão e intepretação precisa e sensível. Lembra standards do jazz.

Am I blue for you? - Gosto da pulsação. Não deve nada às interpretações das canções pop americanas mais cultuadas por aqui. Bela versão de Zélia.

Eu nunca estava lá - Peça mais reflexiva, tratando das dores de amor, violão e voz. Belo arranjo. Mantém a suspensão de intenção durante todo o fonograma. Finaliza o álbum com a suspensão, deixando um gosto de incompletude a ser sanada no próximo trabalho.

sábado, 26 de novembro de 2016

Aqui começa o inferno, dos Zumbis do Espaço



Quem me conhece um pouco sabe que sou uma pessoa que tende a passar uma impressão de seriedade. Quem me conhece mais que esse pouco sabe que, sem prejuízo dessa capa, sou piadista, brincalhão e dou risada de quase tudo.
Ouvir os Zumbis do Espaço para mim é fantástico, porque eles conseguem conversar com esse lado engraçado que tenho. E fazem de um  jeito ímpar.
O rock que apresentam é despretensioso, sem deixar de ser bem feito. Mas o forte deles são as letras com temas macabros e violentos. Em vez de glorificar esses temas e criar um clima de tensão ou dramaticidade, os Zumbis falam dessas coisas de forma direta, explícita, desnudada. Escancarada, eu diria. Dessa maneira, cria-se um pastelão de narrativas de morte, violência e obscuridade, uma paródia do peso mórbido de muitos estilos roqueiros. Fica engraçadíssimo.
Fazer uma composição com a sagacidade que eles fazem é tão difícil quanto fazer uma canção de amor criativa ou uma peça de rock pesado com tons sinfônicos. É um processo de composição diferente, parodístico, mas nem por isso menos brilhante na inteligência.
Ouça com o espírito de não levar a sério e você pode se divertir a valer.
A "Balada do Pistoleiro" é sensacional.

domingo, 13 de novembro de 2016

+ - , do Mew




Descobri essa banda dinamarquesa graças às dicas do LastFM, há muito tempo atrás. Lembrei deles por qualquer razão que não saberia dizer agora, e resolvi sondar o que eles vêm produzindo. Encontrei o disco + - no Spotify, e botei na vitrolinha virtual.

O que mais me chama a atenção na banda é a fantástica tessitura do vocalista Jonas Bjerre, que consegue transitar das regiões médias às mais agudas sem aquelas explosões de esforço e berraria que caracterizam muitas vezes os cantores com baixa confiança. Ao explorar as frequências mais altas, a voz de Bjerre soa suave e delicada quando necessário, e enérgica quando ele quer, mantendo sempre um timbre agradável e personalíssimo.

Nesse álbum, além de Bjerre, muitas outras coisas são notáveis. Quando você começa ouvindo as canções na ordem proposta, as primeiras canções parecem boas canções pop, com arranjo criativo e muito colorido musical. Aos poucos, as canções se tornam mais pesadas, intensas, longas, tendendo para uma pegada mais próxima do rock progressivo, e aí que a banda revela seus maiores dons. "Water Slides", "Rows" e "Cross the River on Your Own" são grandes trabalhos em termos de sentimento, evolução melódica e bom gosto nas escolhas.

Li algumas críticas no AllMusic. Uma em particular detona este álbum, dizendo que o Mew repetiu as fórmulas dos anteriores. Escrevo com a impressão honesta de quem não ouviu os anteriores e achou este muito bom. O que me leva a crer que ficarei encantado com o que veio antes.

Concordo, em partes, com certo incômodo do crítico em relação ao excesso de eletrônica e recursos de estúdio nas primeiras faixas, mas acredito que a beleza das melodias tenha compensado essa orientação.

Vale a visita.

Tem o site da banda. O álbum está disponibilizado em streaming pelo Spotify, junto com os anteriores.

http://mewsite.com






sábado, 31 de maio de 2014

Ghost Stories, do Coldplay


Depois de vender milhões de discos, tocar nos quatro cantos do mundo, atingir o posto de banda mais popular do planeta e ganhar diversos prêmios pela qualidade de seu trabalho, que restaria artisticamente ao Coldplay? Refazer com novas melodias e letras seus antigos refrãos, chamando isso de novo lançamento? Retomar como fórmulas as escolhas dos álbuns anteriores, reforçando-as com um capricho a mais na produção? Creio que não. Artista desse porte precisam correr o risco de desagradar, precisam investir em algo que poucos esperariam e em uma surpresa que tende a ser sempre desagradável, no início, porque o mercado tende a pedir mais do mesmo.

Ghost Stories é um álbum absolutamente surpreendente, e positivamente surpreendente. Parece-me, pela primeira vez na carreira do Coldplay, que não se trata de uma coleção de boas canções bem concatenadas na ordem. É um trabalho artisticamente unitário, orgânico, coeso. O indefinido sentimento entre a tristeza e a leveza atravessa toda a audição, da primeira à última faixa. Quando ouvimos A Rush of Blood to the Head ou X & Y, temos, é claro, uma percepção de unidade do trabalho, construída pela complementaridade das canções, mas elas possuem razoável independências enquanto hits radiofônicos. Nesses álbuns, os temas de cada faixa são diferentes, o clima é diferente, a pegada é diferente. Em Ghost Stories, cada uma das canções, mesmo ouvida isoladamente, remete às outras, solicita a audição das outras. Elas se tornam mais belas no conjunto, e fazem mais sentido quando se respeita a ordem de audição proposta. Midnight e O são lindas e intensas, assim como Another's Arms, mas quando são executadas na sequência do álbum, passam a ser capítulos de uma história sonora. E o mais interessante é que, ao contrário de Mylo Xyloto, Ghost Stories chega como um disco avesso à execução de suas faixas em grandes estádios, porém com a mesma grandeza e intensidade do trabalho anterior. Não há alegria em nenhuma das nove faixas, mas também não há exatamente um mergulho na dor: há uma resposta ao sofrimento pela beleza, e essa resposta é forte e comovida. 

É o melhor trabalho da banda em minha opinião, mas provavelmente seja o menos comercial e o menos propenso a gerar sucessos de rádio. Ainda assim, é o que melhor dialoga com o tipo de emoção que eu procuro na canção popular enquanto gênero.