Depois de vender milhões de discos, tocar nos quatro cantos do mundo, atingir o posto de banda mais popular do planeta e ganhar diversos prêmios pela qualidade de seu trabalho, que restaria artisticamente ao Coldplay? Refazer com novas melodias e letras seus antigos refrãos, chamando isso de novo lançamento? Retomar como fórmulas as escolhas dos álbuns anteriores, reforçando-as com um capricho a mais na produção? Creio que não. Artista desse porte precisam correr o risco de desagradar, precisam investir em algo que poucos esperariam e em uma surpresa que tende a ser sempre desagradável, no início, porque o mercado tende a pedir mais do mesmo.
Ghost Stories é um álbum absolutamente surpreendente, e positivamente surpreendente. Parece-me, pela primeira vez na carreira do Coldplay, que não se trata de uma coleção de boas canções bem concatenadas na ordem. É um trabalho artisticamente unitário, orgânico, coeso. O indefinido sentimento entre a tristeza e a leveza atravessa toda a audição, da primeira à última faixa. Quando ouvimos A Rush of Blood to the Head ou X & Y, temos, é claro, uma percepção de unidade do trabalho, construída pela complementaridade das canções, mas elas possuem razoável independências enquanto hits radiofônicos. Nesses álbuns, os temas de cada faixa são diferentes, o clima é diferente, a pegada é diferente. Em Ghost Stories, cada uma das canções, mesmo ouvida isoladamente, remete às outras, solicita a audição das outras. Elas se tornam mais belas no conjunto, e fazem mais sentido quando se respeita a ordem de audição proposta. Midnight e O são lindas e intensas, assim como Another's Arms, mas quando são executadas na sequência do álbum, passam a ser capítulos de uma história sonora. E o mais interessante é que, ao contrário de Mylo Xyloto, Ghost Stories chega como um disco avesso à execução de suas faixas em grandes estádios, porém com a mesma grandeza e intensidade do trabalho anterior. Não há alegria em nenhuma das nove faixas, mas também não há exatamente um mergulho na dor: há uma resposta ao sofrimento pela beleza, e essa resposta é forte e comovida.
É o melhor trabalho da banda em minha opinião, mas provavelmente seja o menos comercial e o menos propenso a gerar sucessos de rádio. Ainda assim, é o que melhor dialoga com o tipo de emoção que eu procuro na canção popular enquanto gênero.

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